É de louvar concertos desta natureza. Reunir 68 músicos portugueses na Tonhalle de Zurique, perante cerca de 700 pessoas, é um feito que honra Portugal, a música e a comunidade portuguesa na Suíça. O talento esteve presente, a qualidade artística foi evidente e todos os que contribuíram para o sucesso desta iniciativa merecem reconhecimento.
Mas uma coisa é elogiar o que está bem. Outra é fechar os olhos ao óbvio.
O problema não está neste concerto. O problema está na forma desigual como determinadas instituições tratam a comunidade portuguesa na diáspora.
Há patrocínios para uns e não há para outros. Há apoios para determinadas iniciativas e um silêncio absoluto para muitas outras. Tudo isto acaba por levantar dúvidas legítimas sobre os critérios utilizados e sobre a verdadeira isenção das estruturas que deveriam representar todos os portugueses por igual.
O Consulado não é um órgão de comunicação social da diáspora. Não é um jornal, não é uma revista e não é uma plataforma criada para seleccionar quem merece ou não visibilidade. No entanto, o próprio portal oficial ligado aos assuntos consulares é utilizado muito pouco para divulgar a riqueza cultural e associativa da comunidade. Quando o faz, muitas vezes privilegia eventos de autopromoção ou iniciativas escolhidas segundo critérios que nem sempre são claros para todos.
Muitos portugueses têm a percepção de que nem todos são tratados da mesma forma. Existem pessoas, associações, clubes, grupos culturais e órgãos de comunicação social que parecem ficar fora da equação. Não por falta de trabalho, não por falta de actividade, mas porque têm ideias diferentes, porque fazem críticas, porque pedem esclarecimentos ou porque manifestam desagrado perante determinadas situações.
Quem levanta questões incómodas deixa frequentemente de existir para certas estruturas institucionais.
Mais grave ainda é a questão dos apoios públicos destinados à diáspora. Muitos emigrantes interrogam-se sobre a forma como esses apoios são distribuídos. Sabendo que diversos processos passam inicialmente pelos consulados antes de chegarem às entidades governamentais competentes, torna-se legítimo questionar se todos os projectos são analisados com a mesma imparcialidade.
Através da Revista Repórter X e da InfoSuíça sempre reconhecemos quando uma iniciativa é bem apoiada. Este concerto foi muito bem apoiado e isso deve ser dito. Mas exactamente por isso surge uma pergunta simples: porque não olhar para outras instituições com a mesma atenção?
Não existem verbas anuais destinadas aos jornais da diáspora que trabalham diariamente na divulgação da comunidade portuguesa, mas existem apoios atribuídos a determinadas associações e clubes cuja actividade muitos emigrantes nem sequer conhecem ou conseguem identificar.
Recordo igualmente uma afirmação que me foi transmitida pelo Cônsul-Geral de Portugal em Zurique, segundo a qual não teríamos editor. A realidade é que existe uma publicação legalmente registada no Cantão de Zurique e no Principado do Liechtenstein, com actividade pública e conhecida há muitos anos.
Também recordo um vídeo que gravei há muitos anos em frente ao Consulado de Portugal em Zurique. Na altura defendi algo simples. Se o Consulado encerra no dia 10 de Junho, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, porque não poderia abrir no dia 1 de Agosto, Dia Nacional da Suíça? Muitos portugueses trabalham durante a semana e essa poderia ser uma forma prática de facilitar o acesso aos serviços consulares.
A reacção que se seguiu não foi positiva.
E importa dizer algo com clareza. O problema não está necessariamente num cônsul ou noutro. Ao longo dos anos passaram vários responsáveis pelos consulados. As pessoas mudam. Mas certos comportamentos permanecem. Certas mentalidades permanecem. Certas barreiras permanecem.
Há quem diga que existe um cancro instalado dentro de determinadas estruturas. Não um cancro físico, mas um cancro feito de favoritismos, interesses instalados, vaidades pessoais, exclusões e resistência à mudança.
Esse problema também existe em algumas associações e clubes.
A história mostra, porém, que nenhum sistema fechado dura para sempre. Quando há vontade, transparência e coragem, essas barreiras acabam por cair, como já aconteceu noutras instituições e noutros países.
Existe actualmente uma petição que pede mudanças profundas nos consulados e nas embaixadas. Uns apoiam, outros criticam. Uns divulgam, outros ignoram. Muitos falam alto nas redes sociais, mas poucos assumem posições concretas quando chega o momento de agir.
E aqui surge outra realidade da nossa comunidade. Há muita gente que ladra enquanto a caravana passa. Há muita indignação de café e muito pouco compromisso quando é preciso dar a cara.
Até o próprio autor da petição praticamente desapareceu da sua divulgação. Hoje são outras pessoas que continuam esse trabalho.
O concerto realizado na Tonhalle merece aplausos. Merece orgulho. Merece reconhecimento.
Mas também deve servir para recordar que a cultura portuguesa na Suíça não pertence apenas a alguns. Pertence a todos.
E quando os apoios, a divulgação e o reconhecimento forem distribuídos com igualdade, sem favoritismos e sem exclusões, então a comunidade portuguesa ficará verdadeiramente mais forte.
Autor Quelhas
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