Durante anos ouvi dizer que o sector tecnológico era “o futuro”. Ainda hoje ouvimos essa frase em escolas, empresas e campanhas políticas. Mas há um detalhe que continua a incomodar-me: esse futuro ainda não parece pensado para todos.
Um relatório recente revelou que as mulheres têm uma probabilidade 77% inferior de entrar numa profissão ligada às novas tecnologias em Portugal. O dado impressiona, mas infelizmente não surpreende. Basta olhar para muitas empresas tecnológicas, conferências ou cargos de liderança para perceber que a presença feminina continua reduzida.
O problema não começa nas mulheres
O mais interessante deste estudo é a forma como desmonta uma ideia antiga e cansativa. Durante muito tempo, tentou-se convencer as mulheres de que precisavam apenas de “mais confiança” ou “mais interesse” pela tecnologia. Como se a desigualdade fosse uma falha individual.
Na prática, o problema é muito mais profundo. Existem barreiras culturais, sociais e profissionais que continuam a afastar mulheres destas áreas. Desde cedo, muitas raparigas crescem sem referências femininas na ciência ou programação. E isso pesa mais do que parece.
Quando não nos vemos representados num espaço, é difícil imaginar que pertencemos lá.
A falsa ideia de igualdade
Muitas empresas gostam de falar sobre diversidade. Fica bem nos relatórios e nas redes sociais. Mas a realidade continua distante desse discurso moderno e inclusivo.
As mulheres enfrentam maiores dificuldades de progressão, menos reconhecimento e uma pressão constante para provar competência. Em ambientes tecnológicos altamente competitivos, isso torna-se ainda mais evidente.
Conheço mulheres que abandonaram áreas tecnológicas não por falta de talento, mas por desgaste emocional. Comentários subtis, exclusão em reuniões ou oportunidades que simplesmente nunca chegaram.
E talvez seja isso que mais me preocupa: quantos talentos estamos a perder sem sequer perceber.
Mudar estruturas, não pessoas
O relatório deixa uma recomendação importante. As políticas públicas devem deixar de tentar “corrigir” mulheres e começar finalmente a transformar instituições e processos.
Essa mudança faz sentido. Não basta incentivar raparigas a aprender programação se o mercado continua fechado, desigual ou hostil.
A transformação digital só será verdadeiramente moderna quando incluir diferentes vozes, experiências e perspectivas. Até lá, continuaremos a falar de inovação enquanto repetimos velhos padrões.
No fundo, a tecnologia não devia ser um clube exclusivo. Devia ser um espaço aberto para quem tem capacidade, criatividade e vontade de construir o futuro.
E esse futuro precisa claramente de mais mulheres.
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