Governo quer substituir professores portugueses por brasileiros na diáspora:

Governo quer substituir professores portugueses por brasileiros na diáspora:
Governo quer substituir professores portugueses por brasileiros na diáspora:

Foi-me enviada uma petição por professores portugueses na diáspora para divulgar o melhor que conseguir.

Quando uma petição reúne milhares de assinaturas em pouco tempo, o assunto merece atenção. Foi precisamente isso que aconteceu com a recente petição promovida por profissionais do Ensino de Português no Estrangeiro. Mas esta história, pelo menos para mim, não começou com a petição.

Antes mesmo de a petição chegar ao meu conhecimento, um Deputado eleito pelo Círculo da Europa transmitiu-me uma preocupação que me ficou na memória: a possibilidade de o Governo português caminhar para uma alteração profunda do actual modelo de ensino da língua portuguesa no estrangeiro.

A petição não fala directamente em professores brasileiros. Fala de estabilidade profissional, da renovação das comissões de serviço e da valorização dos docentes.

Mas a pergunta continua a pairar no ar: porque estão estes profissionais tão preocupados?

Ninguém recolhe milhares de assinaturas sem motivo. Ninguém se coloca na linha da frente de uma luta destas se não sentir que existe algo importante em risco! Talvez esteja em risco o despedimento, a não renovação de contratos ou a diminuição de despesas, assim como a passagem definitiva para o ensino do português segundo o novo Acordo Ortográfico!?

A questão que deve ser colocada é simples. O que pretende realmente o Governo? Pretende reduzir custos? 

Pretende substituir profissionais experientes por outros mais baratos? Pretende aplicar uma visão diferente sobre a língua portuguesa? 

Pretende consolidar definitivamente o Acordo Ortográfico junto das novas gerações?

Não tenho respostas para estas perguntas. Mas considero que os portugueses têm o direito de as fazer.

Como emigrante, vejo diariamente uma realidade que muitos responsáveis políticos parecem desconhecer. Os portugueses fazem enormes esforços para aprender as línguas dos países onde vivem. Aprendem alemão, francês, italiano, inglês e muitas vezes adaptam até a sua própria forma de falar para conseguirem comunicar com pessoas de outras nacionalidades. Vejo isso todos os dias.

Vejo portugueses a adaptar palavras e expressões para que brasileiros os entendam melhor. Raramente vejo o contrário. Na prática, muitas vezes é o português que adapta a sua linguagem para ser compreendido, enquanto o brasileiro e outros recém-chegados continuam a utilizar as palavras, as expressões e a forma de falar que trouxeram do Brasil ou de outro lugar. Quem vive na emigração sabe que isto acontece.

E é precisamente por isso que muitos pais olham para esta discussão com preocupação. Se os filhos dos emigrantes portugueses frequentam aulas de português para aprender a língua de Portugal, porque razão haveria o Estado português de afastar-se dessa missão?

Um professor vindo do Brasil ensinará naturalmente a variante brasileira da língua que aprendeu desde criança. Utilizará o vocabulário, as expressões e as referências culturais que fazem parte da sua realidade. Isso não é uma crítica. É uma consequência natural. Da mesma forma, um professor português ensina naturalmente a variante portuguesa.

Por isso, muitos emigrantes defendem que os filhos dos portugueses devem aprender o português de Portugal, a língua utilizada nas escolas portuguesas, nas universidades portuguesas, nos tribunais portugueses e nas instituições portuguesas.

O Brasil tem a sua identidade linguística. Portugal também tem a sua. Misturar estas duas realidades linguísticas como se fossem exactamente iguais é ignorar aquilo que milhões de falantes conhecem na prática. Talvez seja por isso que tantos professores decidiram falar agora. Talvez seja por isso que esta petição existe. Porque, por detrás das questões laborais, existe uma preocupação mais profunda: a defesa da língua portuguesa tal como ela continua a ser falada, escrita e transmitida em Portugal.

Cada professor vindo do Brasil ou nascido na diáspora dificilmente ensinará o português de Portugal na velha ortografia de Camões, uma vez que o dialecto, as expressões e muitas palavras utilizadas são diferentes.

autor: Quelhas


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