Vozes que não se calam, o dia em que os variadíssimos lesados ligaram quase tudo diante das instituições

Vozes que não se calam, o dia em que os variadíssimos lesados ligaram quase tudo diante das instituições
Vozes que não se calam, o dia em que os variadíssimos lesados ligaram quase tudo diante das instituições

Num encontro promovido pela Embaixada de Portugal em Berna e o Consulado Geral de Portugal em Zurique e registado em vídeo, com a presença do Senhor Cônsul, representantes da SUVA e da UNIA, no qual agradecemos, foi levado a público um conjunto de testemunhos e documentos que traçam um retracto duro da realidade vivida por trabalhadores acidentados, doentes e famílias em situação de fragilidade.

O foco do encontro não se limitou à prevenção no trabalho como era esperado. Foi muito para além disso devido às atrocidades vividas por muitos, no qual não houve tempo para falar nas histórias todas.

Trouxe para o centro as atenções aquilo que, segundo os intervenientes, muitas vezes é deixado para trás, o antes e principalmente o depois do acidente, o depois da doença, o depois da queda.

Foram apresentados relatos acompanhados de documentação, relatórios médicos, pareceres de advogados, comunicações institucionais e testemunhos directos de Lesados e de Pais. Segundo os intervenientes, esses documentos revelam falhas, omissões e decisões contestadas em várias fases dos processos, desde o momento do acidente até ao acompanhamento posterior. Documentos que a revista Repórter X já conhece e que guarda para expor trabalhos jornalísticos e, que o mesmo, o Senhor Cônsul pediu para lhe chegar às mãos para analisar cada caso individual. Fez questão ainda de fazer contactos para vários Cantões e em várias direcções, para poder chegar a porto seguro, tentar ajudar quem mais precisa e que estiveram ali na Casa do Benfica de Zurique. Foram mais de 15 indivíduos que se fizeram representar, com chamada da Repórter X, cada um com o seu problema, vindos de Zurique,  Uri, Neuchattel, Genebra, Friburgo, Bienne e outros Cantões!..

Durante as intervenções, foi afirmado que, em vários casos, trabalhadores acidentados ou doentes não obtiveram respostas adequadas por parte da SUVA e da IV, também conhecida como AI. Foram descritas situações de atrasos, recusas, cortes e encaminhamentos considerados inadequados face ao estado de saúde dos Lesados.

Alguns testemunhos referiram ainda que pessoas sem condições físicas foram orientadas para regressar ao trabalho ou encaminhadas para a RAV, apesar de não estarem aptas. Foram também relatadas alegadas pressões indirectas, incluindo contactos com entidades empregadoras e serviços de saúde, situações que os intervenientes classificaram como graves.

Segundo os testemunhos apresentados, a ausência de respostas eficazes tem conduzido a uma realidade comum, perda de rendimento, dificuldades financeiras e entrada em situações de pobreza. E é neste ponto que, de acordo com os relatos, se inicia uma nova fase de fragilidade.

Foi estabelecida uma ligação directa entre a condição de Lesado e a instabilidade familiar. Vários intervenientes afirmaram que a falta de apoio económico e social contribui para situações de ruptura dentro das famílias, levando, em alguns casos, à intervenção da KESB. Já são muitos pais e mães portugueses que ficaram sem os filhos e prevenires não é só o acidente de trabalho,  este é um acidente de percurso!

Foram descritas situações em que pais, temendo perder os filhos, optaram por enviar mulheres e crianças para fora do país, como forma de protecção. Outros relatos referiram dificuldades no acesso à justiça, custos elevados com processos e necessidade de recorrer a apoio alimentar em instituições religiosas e outras religiões.

Durante o encontro, foi defendido que os problemas apresentados não devem ser analisados de forma isolada. Os intervenientes sublinharam que existe uma sequência de acontecimentos interligados, o acidente ou doença, a falta de resposta institucional, a perda de rendimentos, a fragilidade social e, por fim, a intervenção em contexto familiar.

Foi igualmente referido que, embora os representantes presentes da SUVA e da UNIA ali presentes, entre todas as instituições envolvidas no geral, não sejam directamente responsáveis por todas as situações descritas, os testemunhos mostram que os diferentes problemas acabam por se cruzar na vida real das pessoas.

A Repórter X foi identificada como a entidade que recolheu, organizou e divulgou os testemunhos e documentos apresentados, assumindo o papel de plataforma de voz para os Lesados contra e a favor da SUVA,  IV/AI e ainda contravou a favor da KESB. 

No plano político e diplomático, foram feitas referências à necessidade de maior intervenção por parte das autoridades portuguesas, nomeadamente Embaixada, Consulado e representantes eleitos pelo círculo da Europa, no sentido de acompanhar e defender os cidadãos portugueses em situação de vulnerabilidade. No entanto os Deputados não estavam contentes por não terem sido convidados pelos nossos Diplomas na Suíça. Era bom e deveriam fazer uma reunião onde o Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas e o Ministro dos Negócios Estrangeiros estivessem também presentes e mostrassem trabalho e não abandono. O Quelhas referiu no texto que leu e pode ser lido nas redes sociais, que os nossos representantes, se não continuar a erguerem uma palha, que dêem lugar a outros, pois foi o povo que elegeu uns e contribui para o ordenado de todos. É duro, mas é verdade e a verdade tem de ser dita.

Entre as várias posições assumidas, destacou-se a defesa de apoio jurídico independente, incluindo a possibilidade de acesso a advogados portugueses, e a exigência de respostas mais claras, acompanhamento digno e respeito pela vida familiar. Todos sabemos que os advogados cá na Suíça dão voz ao sistema e os Lesados de várias situações não tem voz. Não são ouvidos pelos próprios advogados de defesa, quando assim é está tudo dito.

O encontro ficou marcado por um conjunto de intervenções que, embora distintas, convergiram numa ideia comum, prevenir é necessário, mas não suficiente. Segundo os participantes, um sistema só cumpre plenamente a sua função quando, além de evitar a queda, garante apoio efectivo a quem caiu.

Ficou registado, em vídeo e em testemunho directo, um conjunto de situações que, para os intervenientes, exigem análise, resposta e eventual correcção futura, com o objectivo de melhorar o funcionamento do sistema e evitar a repetição de casos semelhantes.

Assinatura:

Prof. Ângela Tinoco

Introdução:

Este texto final não pode ser lido como um aparte nem como algo fora do contexto. Pelo contrário, é aqui que tudo se fecha e tudo se liga, com a linguagem de quem viveu, de quem viu e de quem já não aceita calar.

O texto anterior dizem o que foi falado, mas também há o que não foi lido e foi dito por várias pessoas, cara a cara, com coragem. Leu-se apenas o primeiro texto, o texto introduzido pela Repórter X e os textos do representante dos Lesados da SUVA e da representação das Mães e Pais que lutam contrs a KESB que lhes levaram os seus filhos, mas outros momentos viveram-se ali, na voz de quem falou, na dor de quem contou, na verdade de quem já não aguenta mais.

Houve quem tivesse ido ouvir falar de prevenção. E ouviu-se. Mas também se ouviu aquilo que muitos não querem ouvir, o que acontece depois do acidente. Porque a vida não termina na prevenção, muitas vezes é aí que começa o problema. 

E foi aí que se mostrou o essencial, a ligação entre tudo, sem esconder nada, sem suavizar nada.

A ligação entre o acidente e a doença. A ligação entre a falta de respostas e a pobreza. A ligação entre a pobreza e o desespero das famílias. E a ligação entre esse desespero e o peso da KESB nas suas vidas. Nada disto está separado. Nada disto é coincidência. Foram ditas coisas graves, duras, com indignação, como têm de ser ditas.

Que a SUVA e a IV, a AI, não deram soluções a muitos dos que ali estavam representados. Sabemos que também resolveram muitos problemas! Que há pessoas aleijadas, doentes, sem condições, que são mandadas trabalhar como se fossem máquinas, como se a dor não existisse. Ninguém em estado normal manda um acidentado inapto para a vida, inscrever-se para ir trabalhar, infelizmente muitos profissionais o fazem, médicos corrompidos e instituições que corrompem. 

Que são enganadas, empurradas, arrastadas por um sistema que devia proteger e não protege.

Que são mandadas inscrever na RAV, Fundo-Desemprego, quando se sabe, com plena consciência, que não estão aptas para o trabalho.

E aqui não há rodeios, não há palavras suaves. A isto chama-se corromper. Corromper um sistema que devia servir. Corromper a verdade dos relatórios. Corromper a dignidade de quem já está no chão. Mentir nos relatórios prescritos.

E mais foi dito, e não pode ser apagado nem suavizado. Que há contactos para patrões para despedir. Que há contactos para hospitais para não dar baixa médica.

Isto não são falhas leves, isto são actos graves. E a indignação não é exagero, é resposta justa ao que foi vivido e denunciado. E depois vem o resto, ainda mais pesado, ainda mais humano. Famílias empurradas para a pobreza. Pais sem forças. Mães desesperadas. Mesas vazias e contas por pagar. E por cima de tudo isto, o medo constante da KESB.

Houve quem tivesse de tomar decisões que nenhum pai deveria tomar. Mandar mulheres e filhos embora, não por vontade, mas por necessidade. Para não os perder. Para os salvar de um sistema que, em vez de amparar, aperta. Isto foi dito. Isto foi vivido. Isto não pode ser omitido.

E foi também por isso que, mesmo que alguns pensassem que não era o lugar, que não era o tema, os lesados da SUVA e as mães e pais que lutam contra a KESB fizeram-se ouvir. Porque está tudo ligado.

Mesmo que institucionalmente se tente separar, na vida real cruza-se tudo.

Acumula-se tudo. Pesa tudo ao mesmo tempo. E por isso ficou dito, com clareza que não admite recuos. Prevenir é importante, sim. Mas não basta. É preciso ajudar quem caiu. É preciso apoiar quem ficou doente. É preciso amparar quem perdeu tudo. É preciso proteger os pais frágeis antes de os julgar.

Porque ser pobre não é crime. Porque cair não é crime. Porque lutar pelos filhos não é crime. Ficou o registo. Em palavras, em testemunhos, em vídeo. Mesmo que para alguns parecesse fora do contexto, não estava. Era o contexto inteiro, o contexto da vida real, sem filtros, sem protecções, sem silêncio.

E ficou também dito, com sentido prático e olhando para quem ainda pode prevenir a própria queda, que ser sócio de um sindicato, estar sindicalizado, vale a pena.

Porque dá acesso a advogado, porque em muitos casos são eles que dão o primeiro passo, que encaminham, que orientam para os sítios certos, que ajudam a não cair logo no vazio. Embora também falhem, como foi reconhecido, continuam a ser, muitas vezes, uma das poucas portas que ainda se abrem.

Mas mesmo assim, apesar de tudo, apesar da revolta, apesar da dor, fica algo que não pode morrer.

Vamos ter fé.

autor Quelhas 

Revista Repórter X/ Repórter Editora 

Revistareporterx.blogspot.com

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