Religião; a cultura portuguesa é desrespeitada na Suíça

Religião; a cultura portuguesa é desrespeitada na Suíça
Religião; a cultura portuguesa é desrespeitada na Suíça

A instituição Titlisblick, onde a Luana se encontra, recusou uma visita da Missão Católica Portuguesa em Luzern, nomeadamente do padre Aloisio, responsável por essa missão pastoral junto da comunidade portuguesa.

Este facto levanta sérias questões relativamente ao respeito pela liberdade religiosa, pela identidade cultural e pelos direitos fundamentais de uma criança que, apesar de se encontrar numa instituição, continua a ter raízes, família, língua e tradição.

Pergunta-se, portanto, se existe alguma lei no Zivilgesetzbuch, o código civil suíço, que proteja todos os seres humanos no exercício da sua religião, ou da religião dos seus pais, sobretudo quando se trata de uma criança de apenas quatro anos.

E a questão aqui é ainda mais profunda, a menina está a ser privada de participar da igreja, da catequese e até de receber o baptizado.

Uma bênção foi recusada a uma criança de quatro anos que se encontra numa instituição contra a vontade da mãe. Um gesto simples, humano e espiritual, que não representa qualquer risco, qualquer ameaça ou qualquer interferência negativa na vida da criança.

A religião, para quem tem fé, é uma bênção. Não é apenas um ritual ou uma formalidade. É cultura, é memória, é ligação entre gerações. É uma herança espiritual que muitos pais transmitem aos filhos como parte da sua identidade.

No caso de muitas famílias emigrantes, a fé acompanha a língua, os costumes e a história de um povo que vive longe da sua terra. Durante décadas, as missões católicas portuguesas na suíça foram pontos de encontro, de apoio e de preservação da cultura portuguesa.

Recusar a visita de um sacerdote que apenas desejava conceder uma bênção a uma criança não é apenas negar um gesto religioso. É também cortar um laço cultural e espiritual que faz parte da identidade dessa criança.

Mas as preocupações não terminam aqui.

Segundo informações transmitidas pela própria mãe, no contexto das intervenções da KESB, foi também sugerido que a mãe deveria falar com a filha em alemão, em vez de falar em português, a língua materna da criança e a língua natural da sua família.

Este ponto levanta uma questão ainda mais profunda.

Desde quando uma mãe deve ser pressionada a abandonar a sua própria língua ao falar com a filha. Desde quando a língua materna passou a ser vista como um obstáculo em vez de uma riqueza.

A língua não é apenas um meio de comunicação. É cultura, é identidade, é pertença. É através dela que a criança constrói a ligação emocional com a mãe, com a família e com as suas origens.

Pedir a uma mãe que fale com a filha numa língua que não é a sua língua de coração é ignorar uma realidade humana simples e universal.

Aliás, esta não é uma queixa isolada. Muitos pais e mães emigrantes relatam exactamente o mesmo. Dizem sentir pressão para falar com os filhos em alemão no cantão alemão, em francês no cantão francês e em italiano no cantão italiano.

A Suíça apresenta-se ao mundo como um país de diversidade cultural, onde convivem diferentes línguas, tradições e comunidades. Contudo, situações como esta levantam dúvidas legítimas sobre a forma como, na prática, são tratadas algumas famílias estrangeiras.

Não respeitam a cultura dos ausländer, mas querem ser respeitados.

O respeito entre culturas não pode ser apenas uma exigência num sentido.

Tem de ser um caminho de duas direcções.

Quando uma criança é afastada do ambiente familiar, a responsabilidade das instituições deveria ser ainda maior no sentido de proteger aquilo que faz parte da identidade dessa criança, a sua língua, a sua cultura, a sua fé e a sua ligação à família.

Tirar o direito cultural e as suas raízes ultrapassa limites que nenhuma sociedade que se diz democrática deveria ultrapassar.

Uma bênção foi recusada a uma criança de quatro anos.

Uma mãe é confrontada com a ideia de falar com a própria filha numa língua que não é a sua língua materna.

E a criança é privada de participar na igreja, na catequese e até de receber o baptizado.

São sinais que levantam uma pergunta simples e directa.

Onde fica o respeito pela identidade, pela cultura e pela fé de uma criança e da sua família.

Porque quando se começa por negar pequenas coisas, uma visita pastoral, uma bênção, uma língua materna, corre-se o risco de negar algo muito maior.

A dignidade humana.

Autor, Quelhas.

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