Antes de alguém me acusar de falar por falar, convém esclarecer uma coisa. Eu não escrevi estas linhas sentado atrás de um computador a copiar estudos da Internet. Escrevi um livro designado por «Prostitutas, sexo, amor ou contacto físico». Um livro histórico construído ao longo de anos. Um livro onde falei directamente com pessoas, homens e mulheres, com casados e divorciados, com jovens e idosos, com prostitutas, gays e clientes, com pessoas apaixonadas e pessoas desiludidas. falei com gente que procurava sexo, com gente que procurava amor, com gente que procurava apenas contacto humano.
Não me limitei a observar, falei, escutei e fiz perguntas e ouvi respostas. Passei horas, dias, meses e anos a recolher testemunhos. Neste livro, um dos mais interessantes, a voz do povo foi decisiva pela forma como o tema foi abordado.
Entre Portugal, França, Alemanha, Áustria, Luxemburgo e Suíça fizeram parte desse percurso. A estas experiências juntam-se inúmeros testemunhos de brasileiros e sul-americanos emigrados na Europa. Não falo de teorias, falo de pessoas reais.
Por isso, quando afirmo que existem diferenças culturais na forma como os povos vivem a sexualidade, o amor, a traição, o casamento ou o contacto físico, não o faço por preconceito, faço-o porque ouvi demasiadas histórias para fingir que todos os povos se comportam da mesma forma.
Vivemos numa época estranha. Aceitam-se estatísticas sem rosto, mas desconfia-se de quem passou anos a ouvir seres humanos reais. Parece que uma folha de Excel vale mais do que mil testemunhos.
Ao longo dos anos apercebi-me também de uma realidade curiosa. Muitas pessoas dizem uma coisa em público e outra em privado. Existem comportamentos, desejos, traições e experiências que raramente aparecem nas estatísticas ou nos discursos oficiais, mas que surgem repetidamente quando as pessoas falam sem medo de julgamento. Foi precisamente nesses momentos de conversa franca que encontrei alguns dos testemunhos mais reveladores para compreender aquilo que as pessoas realmente pensam, sentem e vivem.
Na minha experiência, os povos não são iguais. Nem nunca foram.
Existem diferenças na forma de amar. Existem diferenças na forma de seduzir. Existem diferenças na forma de encarar o corpo, o prazer, o casamento e a fidelidade.
Os povos mediterrânicos e latinos revelam frequentemente uma relação mais natural com o afecto e com o contacto humano. Os países do centro e norte da Europa apresentam frequentemente outros padrões culturais. Isto não significa superioridade nem inferioridade. Significa apenas diferença.
Na minha opinião, a religião também desempenhou e continua a desempenhar um papel importante nestas diferenças. Ao longo dos séculos, algumas sociedades viveram a sexualidade de forma mais aberta, enquanto outras a associaram mais à culpa, ao pecado ou à discrição. Contudo, aquilo que as pessoas mostram em público nem sempre corresponde ao que vivem em privado. Por isso, ao analisar os comportamentos humanos, considero importante olhar não apenas para a religião declarada, mas também para a forma como cada cultura realmente vive os seus afectos, desejos e relacionamentos.
Ao longo dos anos ouvi relatos que confirmavam repetidamente determinadas tendências. Não uma vez, não dez vezes e sim centenas de vezes.
Também encontrei muitas mulheres brasileiras emigradas na Europa com uma abertura social e cultural distinta daquela que observei noutras comunidades. O mesmo se aplica a muitos homens brasileiros. Quem atravessa oceanos para recomeçar a vida traz frequentemente uma atitude diferente perante o risco, a aventura, o amor e as relações humanas.
Em relação às francesas, tema que tantos evitam discutir de forma séria, encontrei inúmeras opiniões e testemunhos que apontavam para uma maior descontração cultural relativamente à sedução e aos relacionamentos. Não afirmo que todas sejam iguais, pois seria absurdo. Mas também seria absurdo ignorar padrões que surgem repetidamente ao longo de anos de conversas e observação directa.
Os comportamentos colectivos existem. A História mostra-o. A Antropologia mostra-o. A Sociologia mostra-o. Negar qualquer diferença cultural entre povos é negar uma parte da própria condição humana.
Naturalmente, cada pessoa é única. Há portuguesas mais abertas do que francesas. Há alemãs mais calorosas do que italianas. Há brasileiras mais reservadas do que suíças. Nenhum povo cabe numa caixa.
Existe ainda um factor que raramente vejo discutido de forma frontal e honesta: o clima.
Na minha opinião, o clima influencia profundamente o comportamento humano, incluindo a forma como homens e mulheres se relacionam. Nos países mais quentes, as pessoas passam mais tempo ao ar livre, convivem mais, frequentam praias, esplanadas, parques e espaços públicos durante grande parte do ano.
O próprio vestuário é diferente. O corpo está mais visível. As roupas são mais leves. A pele fica mais exposta ao olhar. E o olhar humano tem um papel muito mais importante do que muitos gostam de admitir.
O desejo nasce muitas vezes daquilo que os olhos vêem. A atracção física não surge no vazio. Surge da observação, da imaginação, da proximidade e do contacto visual. Quando o corpo está mais presente no espaço público, existe naturalmente um maior estímulo visual.
Não afirmo que o calor, por si só, explique tudo. A cultura, a educação, a religião e os valores continuam a desempenhar um papel importante. Mas acredito que existe uma ligação entre os climas mais quentes, a maior exposição do corpo, a maior convivência social e uma atitude mais descontraída perante a sedução e os relacionamentos.
Quem viveu em diferentes países e observou diferentes culturas percebe que o clima não influencia apenas a roupa que se veste. Influencia hábitos, comportamentos, encontros, relações humanas e, em certa medida, a própria forma como o desejo se manifesta na sociedade. Depois afirma-se, e são meros pareceres, que a mulher suíça é fria e que isso deriva do próprio clima, mas lá está, pode também ser cultural, pessoas com mente mais fechada.
Mas também não devemos fingir que todas as culturas produzem exactamente os mesmos comportamentos. No entanto, também ouvi dizer muitas vezes que a mulher árabe, que anda constantemente tapada, suscita a ideia de que gostaríamos de ver a beldade que pode haver por dentro, uma vez que é fruto proibido e, segundo me disseram pessoalmente, em casa andam à vontadinha…
Aquilo que escrevo não pretende ser uma verdade absoluta. Pretende ser o resultado de uma vida a ouvir pessoas. Uma vida a recolher histórias. Uma vida a tentar compreender aquilo que move os seres humanos.
A ideia que me fica é que as francesas, as italianas, as brasileiras e sul-americanas, as espanholas e as portuguesas podem, sim, estar nos primeiros lugares. Contudo, a mulher portuguesa e o homem português, hoje em dia, têm muitos divórcios, logo há a ideia de que há muitas traições pelo meio e aumenta o tema sexo praticado que poderá estar na frente da corrida da maratona!
Existe ainda um aspecto que não deve ser ignorado. Ao longo dos anos ouvi muitas mulheres, de diferentes nacionalidades, afirmarem directa ou indirectamente que a estabilidade económica continua a ser importante na escolha de um companheiro. Não falo necessariamente de riqueza, mas da capacidade de garantir segurança, habitação, sustento e futuro. O amor e a atracção desempenham um papel fundamental, mas a sobrevivência continua presente nas decisões humanas. Talvez por isso, em muitos relacionamentos, o sentimento caminhe lado a lado com a procura de estabilidade.
Na minha experiência e nos inúmeros testemunhos que recolhi ao longo dos anos, a traição continua a ser uma das principais causas de divórcio. Embora existam separações motivadas por dificuldades económicas, incompatibilidades ou desgaste da relação, fiquei frequentemente com a convicção de que a infidelidade está presente numa parte muito significativa das rupturas conjugais.
Quando um casamento termina por traição, surgem muitas vezes novos relacionamentos, novas relações íntimas e novos projectos de vida. Por isso, considero que qualquer análise séria sobre divórcio, sexualidade e relacionamentos deve olhar também para esta realidade, tantas vezes falada em privado, mas menos assumida em público.
Os números têm o seu lugar, mas as pessoas continuam a ser mais importantes do que os números.
autor: Quelhas
Revista Repórter X / Repórter X Editora
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