Seguros de saúde não param de subir e sufocam famílias na Suíça

Cartões de seguros saúde Suíça
Cartões de seguros saúde Suíça

Seguros de saúde continuam a sufocar famílias

Todos os anos espero setembro com a mesma sensação. Não por causa do regresso das aulas ou do fim do verão, mas porque já sei o que aí vem: o anúncio de mais um aumento dos seguros do seguro de saúde na Suíça.

E, sinceramente, começo a sentir que muita gente já desistiu de se indignar. A subida tornou-se quase uma tradição desagradável. Segundo as previsões da Comparis, os seguros do seguro de base poderão aumentar mais 3,7% em 2027. Pode parecer menos dramático do que nos últimos anos, mas continua a pesar bastante no orçamento das famílias.

Quando olhamos para trás, percebemos porque existe tanto cansaço. Em 2026, o aumento foi de 4,4%. Em 2025 chegou aos 6%. Em 2024 disparou para 8,7%. E em 2023 ficou nos 6,6%. Ou seja, a sensação é clara: o custo de viver na Suíça continua a subir mais depressa do que os salários.

Uma subida que já parece inevitável

A explicação dada pelos especialistas até faz sentido. Felix Schneuwly, da Comparis, fala num regresso à “verdade dos custos”. Segundo ele, os aumentos gigantes dos últimos anos não refletiam apenas despesas médicas.

As seguradoras tiveram de reconstruir reservas financeiras após vários anos de seguros considerados demasiado baixos. Entre 2019 e 2022, existiu também pressão política para reduzir essas reservas. Agora, a fatura chegou.

Mesmo assim, custa aceitar esta lógica quando somos nós a pagar todos os meses. A impressão que tenho é que o cidadão comum acaba sempre por absorver os erros do sistema.

E há outro detalhe importante: os rendimentos financeiros das caixas de seguro também influenciam os seguros. Em 2025, as seguradoras tiveram retornos médios de 5,4%, o equivalente a cerca de 807 milhões de francos.

O problema é que ninguém garante que esses ganhos continuem nos próximos anos. E quando os lucros diminuem, os seguros tendem a aumentar outra vez.

A franquia pode subir novamente

Outro tema que começa a preocupar muita gente é a possível subida da franquia mínima. Atualmente fixada nos 300 francos, poderá passar para 400 francos.

O Conselho Federal colocou essa alteração em consulta durante o mês de março. A ideia passa por aumentar a responsabilidade individual e travar os custos da saúde.

Na teoria, parece simples. Na prática, tenho dúvidas. Muitas pessoas já evitam consultas médicas porque têm receio dos custos. Se a franquia aumentar, esse comportamento poderá piorar.

E quando alguém adia exames ou tratamentos, o problema raramente desaparece. Muitas vezes torna-se mais grave e mais caro mais tarde.

Não admira que partidos de esquerda e sindicatos estejam fortemente contra esta proposta.

Um sistema cada vez mais caro

Existe ainda outro fator que ajuda a explicar estas subidas constantes: o catálogo de tratamentos comparticipados continua a crescer.

Hoje, o seguro básico cobre muito mais situações do que há alguns anos. Entre elas estão sessões de psicoterapia realizadas por psicólogos, determinados tratamentos para perda de peso e até alguns cuidados prestados por familiares.

Claro que muitas destas medidas são importantes. A saúde mental, por exemplo, merece muito mais atenção do que teve no passado.

Mas também é verdade que cada nova cobertura representa mais despesas para o sistema. E essas despesas acabam refletidas nos seguros mensais.

Segundo dados citados pela Comparis e pelo OFSP, algumas áreas registaram aumentos impressionantes. Os cuidados ao domicílio cresceram 13%. Já a psicoterapia aumentou quase 10%.

Quando vemos estes números, percebemos rapidamente porque os custos da saúde continuam fora de controlo.

O lado positivo do Tardoc

Nem tudo são más notícias. Existe algum otimismo em torno do novo sistema tarifário Tardoc, que substituiu o antigo modelo Tarmed para os cuidados ambulatórios.

A principal novidade é um mecanismo automático de controlo de custos. Se as despesas aumentarem mais de 2,5% sem justificação válida, os preços podem ser ajustados para baixo.

Pela primeira vez, existe um sistema mais automático e menos dependente de negociações intermináveis.

Pessoalmente, acho que esta mudança pode trazer algum equilíbrio. Talvez não resolva tudo, mas pelo menos mostra que existe consciência do problema.

Porque, neste momento, muitos residentes sentem que trabalham cada vez mais apenas para pagar seguros, rendas e despesas básicas.

Uma preocupação que já afeta toda a gente

O mais impressionante é perceber como este tema passou a dominar conversas do dia a dia. Antes, falar dos seguros de saúde parecia um assunto técnico ou distante.

Hoje não.

Oiço colegas, amigos e famílias inteiras a discutir estratégias para reduzir custos. Alguns mudam de seguradora todos os anos. Outros aumentam franquias. Há quem simplesmente corte noutras áreas da vida.

E isso acaba por ter impacto na qualidade de vida.

A Suíça continua a ter um dos melhores sistemas de saúde do mundo. Pouca gente discute isso. O problema é que um sistema excelente deixa de ser sustentável quando começa a tornar-se incomportável para a classe média.

Talvez o maior risco seja precisamente esse: normalizarmos aumentos constantes sem exigir reformas mais profundas.

Porque uma subida de 3,7% pode parecer “moderada”. Mas, somada aos aumentos dos últimos anos, representa um peso enorme para milhares de famílias.

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