O regime nazi lutava com armas, a Suíça mata com silêncio: um sistema que falha quando mais se precisa

O regime nazi lutava com armas, a Suíça mata com silêncio um sistema que falha quando mais se precisa
O regime nazi lutava com armas, a Suíça mata com silêncio um sistema que falha quando mais se precisa

Entre a dignidade e a sobrevivência!

Há momentos na vida dos emigrantes em que tudo o que foi construído ao longo de décadas se coloca à prova num instante. Não por querermos, não por erro, mas porque a vida, na sua natureza imprevisível, assim o determina. A doença, o acidente, a incapacidade súbita e, é precisamente nesses momentos que um sistema social revela a sua verdadeira essência, não no discurso, mas na prática.

Um caso recente ocorrido na Suíça, envolvendo um cidadão obrigado a devolver dezenas de milhares de francos de ajuda social por ser um homem livre e com direito de viajar e ter alguns bens, embora que a notícia mal explicada diga que fazia boa vida e como digo a seguir, os bens não se comem e termos hoje o essencial, amanhã podemos não ter sobrevivência e ao termos direito a um subsídio porque omitimos ter carro, pode não justificar ter que o vender, porque a ficha nos caiu da noite para o dia. Contudo irei falar noutros casos e este sobretudo veio reacender um debate que muitos preferem manter em silêncio.

Não se trata de um caso único, nem de um episódio distante da realidade quotidiana de milhares de trabalhadores, em especial imigrantes, que ao longo de anos contribuíram, descontaram, pagaram duplo imposto, produziram riqueza e sustentaram, com o seu esforço e suor, uma economia sólida e admirada.

A questão que se impõe é dura e profunda. Quando alguém trabalha durante décadas, paga impostos, contribui para o sistema social e, num momento de fragilidade, precisa de apoio, o que lhe é devolvido não deveria ser mais do que um mínimo de dignidade garantida. No entanto, a realidade mostra um cenário bem diferente.

Na prática, o sistema distingue duas categorias de pessoas, não pelo esforço feito ao longo da vida, mas pela situação patrimonial no momento da necessidade, entre os que têm bens e os que não têm nada…

Quem nada tem, recebe. Quem tem alguma coisa, mesmo que não tenha liquidez imediata, é pressionado a usar ou a desfazer-se desse património antes de receber qualquer apoio significativo.

E aqui começa o verdadeiro conflito!
Uma casa não se come. Um terreno não paga medicamentos. Um carro não sustenta uma vida quando a saúde falha.

No entanto, o sistema trata esses bens como se fossem dinheiro disponível, e mesmo que fosse, ignorando a realidade prática da vida. Exige-se, implicitamente, que se venda, que se liquide, que se consuma aquilo que foi construído com sacrifício ao longo de anos. Não há igualdade para duas situações de empregabilidade e ordenado e descontos, para quem fez riqueza porque poupou e para quem sempre andou em restaurantes!

Não há uma ordem directa, não há uma imposição explícita. Mas há uma escolha condicionada, subtil e silenciosa. Ou se utiliza o património que tens em Portugal para sobreviver no país de acolhimento com custo elevado, ou se abandona esse país em busca de uma vida onde esse mesmo património permita viver com dignidade.

Não é uma obrigação. Mas também não é uma verdadeira escolha.

Este modelo levanta uma questão moral difícil de ignorar. Dois indivíduos podem ter trabalhado a mesma quantidade de anos, recebido salários semelhantes, contribuído de forma idêntica para o sistema. Um optou por poupar, investir, construir. Outro optou por gastar, consumir, viver o presente. No momento da queda, o primeiro vê-se pressionado a usar tudo o que tem antes de receber apoio. O segundo, por nada possuir, recebe apoio imediato.

A mensagem implícita é perturbadora!
Não ter nada torna-se, em certos casos, mais vantajoso do que ter alguma coisa.

E isso cria uma inversão de valores que não pode ser ignorada. A prudência deixa de ser protegida. A responsabilidade deixa de ser recompensada. O esforço acumulado transforma-se num obstáculo ao apoio. Duas pessoas, dois mundos diferentes, isto para os emigrantes é discriminação, para a Suíça é cumprir a Lei, cujo o emigrante vê como corromper o nosso direito.

A isto soma-se um outro factor, igualmente relevante, o valor emocional e estratégico do património. Para muitos imigrantes, uma casa no país de origem não é apenas um bem econômico. É um refúgio. É um plano de regresso. É a garantia de que, se tudo falhar, existe um lugar onde recomeçar sem depender da Suíça, pois se não ajuda, deixamos de contar com eles e vamos embora, sentimo-nos discriminados e muitos dizem; comeram-nos a carne, que nos comam os ossos…

Forçar, directa ou indirectamente, a venda desse património para sustentar uma vida num país de elevado custo, equivale, na prática, a retirar essa rede de segurança. É resolver o presente à custa do futuro. É dar-nos o que é nosso e que nos custou o nosso suor e impostos pagos e quiçá faltou qualidade de vida ao contrário daqueles que ganharam e gastaram e gozaram a vida!

E quando o futuro desaparece, o indivíduo fica exposto, vulnerável, dependente de um sistema que, como já demonstrado, nem sempre responde com humanidade.

Outro aspecto frequentemente ignorado é a questão da liquidez. Ter patrimônio não significa ter dinheiro disponível. Vender implica tempo, perda, desvalorização, e por vezes até impossibilidade prática. Ainda assim, o sistema opera como se essa conversão fosse imediata e simples, o que está longe da realidade.

Perante este cenário, surgem comportamentos que reflectem mais a adaptação à rigidez do sistema do que qualquer intenção de fraude. Separações formais no casamento para efeitos fiscais ou sociais, doações antecipadas de bens aos filhos, reorganizações patrimoniais. São sinais claros de que as regras existentes não acompanham a complexidade da vida real.

Não se trata de justificar tais comportamentos, mas de compreender o que os origina. Quando um sistema não oferece respostas equilibradas, as pessoas procuram alternativas. Nem sempre correctas, mas quase sempre motivadas por necessidade.

A discussão não deve centrar-se em casos isolados, nem em julgamentos apressados. Deve centrar-se na estrutura. Num sistema que privilegia a análise fria dos números em detrimento da compreensão da realidade humana.

É evidente que qualquer sistema social necessita de regras. É evidente que os recursos não são ilimitados. Mas também é evidente que a dignidade não pode ser tratada como uma variável secundária.

Quando alguém sente que, para sobreviver, tem de abdicar de tudo o que construiu, algo está profundamente desalinhado.

Não se trata de exigir privilégios. Trata-se de exigir coerência.

Um sistema que beneficia do trabalho de milhares ao longo de décadas deve ser capaz de garantir mais do que uma sobrevivência condicionada quando esses mesmos indivíduos deixam de poder contribuir pelo fracasso inesperado da vida. Deve ser capaz de reconhecer o percurso, não apenas o momento.

Há situações num cônjuge que só um é beneficiário de uma pensão de invalidez ou até de reforma por idade ou até de desempregabilidade, a Suíça faz a contabilização dos dois, o medíocre valor recebido principalmente da pensão de invalidez no qual podem dar um complemento do Instituto de Seguro Social do Estado, (não segurança social) mas tem de ser pedido, caso não peça não recebe e o Estado suíço lucra com a sua azelhice e falta de conhecimento.

A reforma também é dada em função do cônjuge, quando um trabalha e outro é reformado ou no caso dos dois reformados um tem mais descontos que o outro fazem cálculos iguais a pagar tirando de uma parte para a outra.

Caso de desemprego prolongado que a RAV Seguro-Desemprego tenha acabado e pedir ajuda e neste caso já à Segurança Social será em função também do cônjuge dependendo dos rendimentos dele. Por muitos motivos há separação no casamento fictício.

Quando um recebe ajuda, recebem os dois ajuda, directa ou indirectamente, pois no caso de um ter ajuda difere sempre do outro, trabalha recebe menos ajuda, fica em casa por falta de trabalho ou doença, recebe por igual. Um ganha, descontam na ajuda, não ganha o outro recebe mais na ajuda. Terão sempre o mínimo suficiente para sobreviver.

A verdadeira justiça social não está apenas em ajudar quem nada tem. Está também em não penalizar quem teve a capacidade de construir alguma coisa.

E enquanto essa diferença não for compreendida, continuarão a existir histórias silenciosas de pessoas que, perante a escolha entre perder tudo ou partir, optam por abandonar o país de acolhimento.

Não por falta de vontade de ficar, mas por necessidade de preservar aquilo que ainda lhes resta. Porque no fim de tudo, há uma verdade que nenhuma lei consegue apagar. A dignidade não se negocia.

O silêncio que pesa:

Há realidades que não entram nas estatísticas, não aparecem nos relatórios oficiais e não cabem nos discursos políticos cuidadosamente preparados. Há realidades que vivem na pele de quem trabalhou uma vida inteira, descontou, pagou, contribuiu, e que, num momento de fragilidade, descobre que o sistema que ajudou a sustentar não responde como esperado. Sentimo-nos sem tecto e sem chão!

O que está em causa não é apenas a assistência social. É um conjunto de factores que se cruzam e se acumulam, acidentes de trabalho, doenças incapacitantes, rendas elevadas, seguros de saúde obrigatórios, custo de vida sufocante e um modelo que, na prática, avalia o indivíduo não pela sua história, mas pela riqueza que tem no presente.

Na Suíça, a vida constrói-se com esforço! Rendas que facilmente ultrapassam os dois mil francos, seguros de saúde que não são opcionais, despesas constantes que não desaparecem quando o corpo falha. E quando o trabalho deixa de ser possível, por doença ou acidente, começa uma travessia que muitos não imaginavam.

As pensões de invalidez existem, mas são, em muitos casos, insuficientes. Valores que rondam os setecentos, oitocentos ou mil francos por mês não chegam para cobrir uma vida digna num país onde tudo custa caro. E então surge o complemento, a chamada ajuda adicional, que deveria ser a ponte entre a sobrevivência e a dignidade.

Mas essa ponte tem condições!
E é aí que tudo se complica. O sistema olha para os bens. Não apenas para o que a pessoa ganha, mas para o que possui. As casas, os terrenos, as poupanças, mesmo que estejam fora do país. E a lógica é simples, quem tem, usa.

Só que a vida não é assim tão simples!
Uma casa não se come. Um terreno não paga medicamentos e, ninguém vive de paredes ou de terra. O que falta, muitas vezes, é dinheiro imediato. Liquidez. Capacidade de pagar o mês seguinte.

E no entanto, o sistema insiste em tratar património como se fosse rendimento. É aqui que nasce a revolta. Porque quem construiu alguma coisa ao longo da vida, quem poupou, quem investiu, quem fez sacrifícios, vê-se numa posição pior do que quem não tem nada. E isto não é teoria. É prática.

Dois trabalhadores, dois percursos semelhantes, anos de descontos, esforço idêntico. Um gastou tudo. Outro construiu património. Quando chega à dificuldade, o primeiro recebe apoio. O segundo é empurrado para usar o que tem.

Não é obrigado directamente. Mas é colocado perante duas opções claras, ou vende para sobreviver, ou vai embora. Não é justo!

“Ninguém obriga a nada.”

Mas a escolha está condicionada!
E quando uma escolha é feita sob pressão, deixa de ser verdadeiramente livre. Há um ponto que não pode ser ignorado. Os bens no país de origem, como em Portugal, não são luxo. São segurança. São o regresso possível. São planos para quando tudo falhar.

Obriga-se, ainda que indirectamente, a vender essa segurança para sustentar uma vida cara num país onde já não se consegue trabalhar. A Suíça quer que transferimos tudo para cá, para serem ainda mais ricos!

E depois?

Depois, quando quiser regressar, não há casa. Não há chão e nem tecto. Há apenas a necessidade de começar do zero, pagando renda num lugar onde antes havia estabilidade. Ao engrenarmos nisto, ao regressarmos doentes ou velhos teremos de pedir ajuda em Portugal porque a Suíça nos manipulou! Quem nos come a carne que nos coma os ossos!

“É aí que ele está lixado para a vida.”

E esta expressão, crua, directa, diz mais do que qualquer relatório técnico. Porque traduz o que está em causa, não é dinheiro, é futuro. Outro ponto que levanta questões é o papel dos familiares. Diz-se muitas vezes que a família pode ajudar. Mas como?

“Os familiares a quem foi dada a casa ou os terrenos não comem terra nem comem casas para ajudar.”

Ter patrimônio não significa ter dinheiro disponível. E mais uma vez, a lógica do sistema choca com a realidade. Há ainda a questão da liberdade e dignidade pessoal de quem sempre fez tudo direito. Pode alguém em situação de apoio viver como ser humano livre?

Pode poupar no dia-a-dia, comer em casa para evitar despesas, e depois usar esse esforço para fazer umas pequenas férias?

Pode aceitar uma viagem paga por um filho?

Ou passa a viver sob um olhar constante, onde cada gesto é analisado e somos discriminados?

Há uma diferença clara entre viver com contenção e viver sob vigilância. E quando essa linha é ultrapassada, a ajuda transforma-se em controle. Um controle igual ao do salazarismo em Portugal!

“Ninguém é escravo de si mesmo.”

Mas há quem sinta que, dentro destas regras, a liberdade se reduz. A pressão não é apenas económica. É também psicológica. A solidão, a doença, a incerteza, a falta de resposta clara. Tudo se acumula.

E é neste contexto que surgem questões mais duras.

“Sabe por que é que na Suíça muita gente comete suicídio?”

Não há uma única resposta. Mas há factores que não podem ser ignorados.
Quando a vida aperta de todos os lados, quando não há saída clara, quando o sistema parece distante, o peso torna-se insuportável para alguns.

Não se trata de simplificar. Mas também não se trata de ignorar. Há quem diga que certas estruturas não precisam de força visível para pressionar.

“O Hitler lutava com armas, a Suíça mata com silêncio.”

A frase é forte, polémica, mas traduz um sentimento. Não de violência directa, mas de pressão silenciosa, constante, difícil de combater. Um sistema que não grita, mas que aperta. Que não impõe, mas que condiciona. Que não expulsa, mas que leva a sair.

Há ainda uma dimensão mais ampla!
A Suíça, tal como Mônaco e Liechtenstein, é vista como um centro financeiro forte. Um espaço onde o dinheiro circula, onde grandes capitais encontram refúgio. Um paraíso fiscal, como muitos lhe chamam e, neste contexto, surgem também teorias e convicções sobre influências externas, nomeadamente o papel dos Estados Unidos da América, vistos por alguns como presença estratégica nestes centros financeiros. Os paraísos fiscais são o ninho dos EUA onde a Besta que fala na Bíblia e os G7 manipulam tudo e a Suíça está dentro e escondida nesse sistema fechado…!

Não se trata aqui de provar ou negar essas visões, mas de reconhecer que fazem parte da leitura que muitos cidadãos fazem do sistema onde vivem. Porque quando o indivíduo comum é analisado ao detalhe, enquanto grandes fluxos financeiros circulam com liberdade, a percepção de desigualdade cresce.

No fim, tudo converge para uma questão essencial. O sistema protege, ou apenas regula?

Ajuda, ou condiciona?

Reconhece o percurso de quem contribuiu, ou apenas o estado actual de quem precisa?

A resposta não é simples!
Mas há uma certeza. Quando alguém que trabalhou uma vida inteira sente que, para sobreviver, tem de destruir tudo o que construiu, algo está desalinhado, enquanto que aqueles que cagaram tudo na sanita têm direitos de ajuda?

E quando esse sentimento se repete, deixa de ser um caso isolado. Passa a ser problema estrutural. Porque no fim, não se trata de política, nem de economia. Trata-se de dignidade.

E essa, quando é posta em causa, não se resolve com números. Resolve-se com justiça. Faz-se muitos disparates, a Lei é para cumprir, mas a legislação está a favor da Constituição e a Constituição mal estruturada deve ser reparada e isenta. Não pode haver dois caminhos para duas pessoas iguais.

autor: João Carlos Quelhas

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