Escrevo-lhe como cidadão português emigrante e como lesado da SUVA, profundamente revoltado com aquilo que presenciei e vivi no debate realizado na Casa do Benfica de Genebra, conduzido pela Senhora Cônsul-Geral de Portugal em Genève.
Sinto que os emigrantes portugueses na Suíça continuam abandonados pelas instituições portuguesas e tratados como um problema incómodo sempre que tentam falar das suas dores, das injustiças que enfrentam e da destruição das suas vidas após acidentes de trabalho.
Algo está errado. Não está a ser divulgada toda a verdade. Apenas querem deixar a verdade deles e omitir a nossa verdade.
A SUVA não teve ninguém presente da chefia para responder directamente aos lesados, apenas representantes portugueses. Mais uma vez vimos instituições a fugir às responsabilidades, enquanto os emigrantes continuam sem respostas, sem justiça e sem protecção verdadeira.
Na minha opinião, existiu um plano político e diplomático para evitar responsabilidades directas.
O Senhor Embaixador não esteve presente num debate onde estavam pessoas destruídas física, psicológica e financeiramente. Pessoas que perderam saúde, rendimentos, famílias e dignidade. A obrigação do Senhor Embaixador era agendar estes encontros para datas em que não tivesse mais nenhuma agenda.
A médica ali presente, também ela portuguesa, acabou, infelizmente, por transmitir uma posição demasiado próxima do sistema que tantos lesados contestam há anos, um sistema onde muitos sentem existir protecção mútua entre determinadas estruturas da SUVA e alguns médicos suíços, alemães e portugueses.
O sindicato, representado por um português, esteve mais correcto em certos momentos, mas também acabou por defender sobretudo os seus próprios erros e responsabilidades.
Apesar de intitularem representantes da SUVA, da UNIA e uma médica, todos portugueses, foi para nos vendarem os olhos, um serviço que o Embaixador mostrou sem qualquer efeito.
Mas aquilo que mais revolta causou entre muitos participantes foi a forma como o debate foi conduzido pela Senhora Cônsul-Geral de Genève.
Houve interrupções constantes, desconforto perante determinados temas e tentativas claras de limitar intervenções quando se falava de assuntos incómodos ligados à SUVA, à pobreza após acidentes de trabalho, à quebra de salários, às dificuldades familiares e até a processos ligados à KESB.
Anteriormente, também Alice Tavares apenas tentou pedir uma informação simples relacionada com uma senhora que falava francês e, mesmo aí, já existiu tensão e tentativa de limitar a palavra.
Muitas pessoas ficaram indignadas. Algumas abandonaram a sala revoltadas com o ambiente criado. Alguns funcionários do Consulado e da Embaixada foram lá por encomenda, tal como os Conselheiros, e foram eles que atiçaram a Senhora Cônsul de Genebra a encerrar o programa a meio de uma leitura, só porque não agradou, quando estavam a defender o nosso interesse.
Os emigrantes portugueses não podem continuar a ser tratados como figurantes políticos ou como pessoas que apenas servem para enviar dinheiro para Portugal, enquanto vivem abandonadas quando enfrentam tragédias humanas na Suíça.
Tudo aquilo que foi referido no debate está ligado. Acidentes de trabalho, pobreza, destruição familiar, problemas psicológicos, perda de filhos, perda de dignidade e medo constante. E quem sofre tem direito a falar sem ser interrompido.
Senhor Presidente da República, peço-lhe que olhe seriamente para aquilo que se passa com muitos portugueses emigrados na Suíça e para a forma como certas estruturas diplomáticas lidam com os cidadãos quando estes levantam temas incómodos.
Precisamos de representantes que saibam ouvir o povo emigrante e não apenas proteger instituições. Precisamos de advogados portugueses para nos defender na Suíça. Queremos reuniões co os Lesados da SUVA e com os pais afectados pelas decisões da KESB para recuperarem as vossas crianças.
Precisamos de coragem, verdade e dignidade.
Com respeito,
Domício R. Gomes
Revista Repórter X / Repórter Editora
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