Indignação seletiva na justiça portuguesa

Indignação seletiva na justiça portuguesa
Indignação seletiva na justiça portuguesa

O que me revolta

Podem chamar-me o que quiserem, mas há coisas que simplesmente não consigo ignorar.
Sinto uma profunda revolta quando vejo certas reações nas redes sociais.

Não estou aqui para defender o indefensável.
O caso de Ihor Homeniuk foi brutal, injustificável e merece condenação clara.

A lembrar o que se passou, os funcionários do SEF que negaram a entrada a alguém sem visto Schengen ainda são culpados? Não tinha visto, comportou-se de forma agressiva e exigiu que o deixassem passar. E toda a situação provocou-lhe uma paragem cardíaca. Acham que algum estrangeiro tem o direito de se comportar assim na fronteira? Se resistirem, o que se deve fazer?

Mas o que realmente me mexe comigo vai além disso.
É a forma como a sociedade escolhe onde colocar a sua indignação.


Um silêncio que incomoda

O que me leva a esta indignação é simples e direto:
não vejo quase ninguém a defender o desgraçado do cabo da GNR que morreu numa lancha em Vila Real.

Este silêncio pesa.
E pesa ainda mais quando comparo com o barulho feito noutros casos.

Não se trata de desvalorizar uma vítima para valorizar outra.
Trata-se de perceber porque algumas histórias geram ondas de revolta e outras desaparecem quase sem eco.


Dois pesos, duas medidas

É aqui que sinto claramente a existência de dois pesos e duas medidas.
Num caso, vemos partilhas, opiniões, julgamentos e debates intensos.

Noutro, quase nada.
Quase como se a dor não tivesse o mesmo valor.

Isto levanta uma questão difícil:
Será que a empatia depende do contexto, da narrativa ou da imagem que se cria?

Porque, no final, estamos sempre a falar de vidas humanas.


O caso que reacendeu tudo

A libertação dos ex-funcionários ligados ao antigo SEF reacendeu este debate.
Foram condenados por um crime grave, e agora beneficiam de liberdade condicional.

Muitos consideram a pena insuficiente.
Outros questionam o sistema.

Eu próprio acho que seis anos parecem pouco para a gravidade do que aconteceu.
Mas a minha maior inquietação não está apenas na pena.

Está na comparação com outros casos que não recebem a mesma atenção.


A diferença está na reação

O problema não é indignarmo-nos.
O problema é escolhermos quando o fazer.

Quando uma sociedade reage de forma desigual, cria-se uma sensação de injustiça ainda maior.
Não apenas no sistema judicial, mas na própria consciência coletiva.

E isso é perigoso.
Porque começamos a normalizar que algumas vidas valem mais do que outras no espaço público.


Uma reflexão necessária

Não tenho respostas fáceis.
Mas sei que esta incoerência me incomoda profundamente.

Precisamos de mais equilíbrio, mais coerência e, acima de tudo, mais humanidade.
Não seletiva, mas constante.

Porque enquanto continuarmos a reagir assim, vamos sempre alimentar esta sensação de injustiça.
E isso, no fundo, afeta-nos a todos.

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