Foi verdade ou não que Madre Teresa de Calcutá traficou crianças?

Foi verdade ou não que Madre Teresa de Calcutá traficou crianças?
Foi verdade ou não que Madre Teresa de Calcutá traficou crianças?

Há memórias da escola que ficam gravadas como marcas fundas na consciência. Nas aulas de Educação Religiosa, há cerca de 50 anos, fui obrigado a falar e a descrever a figura de Madre Teresa de Calcutá, também conhecida como Madre Teresa. Confesso que nunca gostei. Achava aquilo uma coisa aberrante. 

E digo-o sem ressentimento, eu já nessa idade era crítico. Como diz o velho ditado e eu sempre fui assim desconfiado; “Não acredites em tudo como as teorias da conspiração nos tentam manipular”.

Naquela altura já não aceitava facilmente aquilo que me apresentavam como verdade absoluta. Já ali, nos bancos da escola, sentia que o mundo não podia ser tão simples como os manuais o pintavam.

Enquanto muitos repetiam o que os livros diziam, eu olhava para aquela veneração quase obrigatória com desconfiança. Era como se toda a sala tivesse de admirar a mesma figura sem espaço para dúvida. Esse espírito crítico nasceu cedo e nunca desapareceu e por isso também nunca fui muito crente em nada. Hoje continuo a olhar para as grandes figuras públicas com a mesma prudência, porque a experiência da vida ensina que por detrás das imagens santificadas muitas vezes se escondem realidades mais complexas. Já escrevi sobre outras personagens da mesma forma!

A mulher que o mundo passou a venerar nasceu nos Balcãs com o nome de Anjezë Gonxhe Bojaxhiu e fundou a congregação das Missionárias da Caridade. A partir de Calcutá construiu uma vasta rede de casas destinadas a acolher pobres e doentes abandonados. Em 1979 recebeu o Prémio Nobel da Paz, e décadas mais tarde foi declarada santa pela Igreja Católica em 2016 pelo Papa Francisco.

Durante muitos anos quase ninguém ousava questionar esta imagem. Era apresentada ao mundo como a encarnação da caridade cristã. A igreja e a escola impigiram-nos esta imagem entre outras e levaram muitos a acreditar na história da carochinha, tal como noutras imagens da igreja ou qualquer outro ídolo fabricado!

Mas o tempo trouxe também críticas e investigações. O escritor Christopher Hitchens publicou uma das críticas mais duras, acusando a organização de manter cuidados médicos extremamente pobres e de aceitar donativos de figuras envolvidas em escândalos financeiros.

Entre esses doadores estava o banqueiro Charles Keating, protagonista de um grande caso de fraude nos Estados Unidos.

Também foi criticada por manter proximidade com dirigentes políticos autoritários, como o ditador haitiano Jean-Claude Duvalier, que a recebeu com honras enquanto o seu regime era acusado de corrupção e repressão.

Anos depois da morte da fundadora surgiu ainda um escândalo real na Índia. Em 2018, num lar das Missionárias da Caridade na cidade de Ranchi, uma funcionária foi detida por vender ilegalmente um bebé. O caso foi investigado pela polícia indiana e confirmou que existiu uma venda ilegal de uma criança naquele centro.

A partir desses factos surgiram nas redes sociais narrativas muito mais amplas e dramáticas, mas falta saber a real verdade sobre factos!

Alguns textos afirmam que Madre Teresa teria dirigido uma gigantesca rede internacional de tráfico infantil envolvendo milhões de crianças e ligações a figuras como Jeffrey Epstein. Contudo, essas acusações não aparecem sustentadas por investigações judiciais nem por trabalhos jornalísticos consistentes. 

“Sabemos que no meio de crianças levadas para adopção não constam crianças filhas de ricos, só de pobres e famílias distreturadas, sem dinheiro para combater esta corrupção, no qual lhe chamam um ninho de Abelhas”.

Assim se revela a paisagem mais próxima da verdade. Existe o mito construído durante décadas, existe a crítica séria baseada em factos, e existe também o exagero que nasce no terreno fértil das teorias conspirativas.

O que permanece, no entanto, é uma lição antiga: 

O espírito crítico, quando nasce cedo, acompanha o homem pela vida inteira. E talvez seja esse olhar inquieto, que já existia na infância e continua vivo hoje, que impede o pensamento de se ajoelhar perante qualquer figura elevada a altar pelo mundo. Porque a verdade, quase sempre, vive mais perto da pergunta do que da veneração.

Foi verdade ou não que Madre Teresa de Calcutá traficou crianças?

Não há razão para medo. Há apenas uma razão para rigor. Quando um texto contém muitas acusações graves contra pessoas e instituições, o dever de quem responde é separar o que está comprovado, o que é meia verdade, e o que é falso ou sem prova. É isso que faço agora de forma directa.

Primeiro, a figura central, Madre Teresa de Calcutá:

1. O que é verdade comprovada

Existem críticas sérias e documentadas à forma como funcionavam algumas casas das Missionárias da Caridade.

Alguns pontos conhecidos:

Condições médicas muito pobres em várias casas para doentes.

Forte dependência de donativos, sem grande transparência pública nas contas.

Aceitação de dinheiro de figuras controversas.

Um caso concreto envolve o financeiro americano Charles Keating, condenado por fraude. Madre Teresa escreveu ao juiz pedindo clemência para ele. Esse episódio é real e muito citado pelos críticos.

Outro facto histórico, ela aceitou apoio e honras do ditador haitiano Jean-Claude Duvalier, o que gerou críticas por legitimar regimes autoritários.

E existe também um escândalo real ocorrido em 2018 num lar das Missionárias da Caridade na Índia, onde uma funcionária foi presa por vender ilegalmente um bebé. O caso foi investigado pela polícia.

Portanto, existem problemas reais associados à congregação:

2. O que é meia verdade

O texto que me enviaram pega nesses factos reais e amplifica-os.

Casos isolados de adopções irregulares ou venda ilegal de bebés foram detectados em alguns lares. Porém, transformar isso numa gigantesca operação global dirigida pessoalmente por Madre Teresa nunca foi comprovado.

Outro exemplo:

A congregação administrou centenas de casas e orfanatos no mundo. Mas o número de “três milhões de órfãos traficados” não aparece em qualquer investigação credível.

3. O que não tem prova e é considerado falso

Grande parte das afirmações do texto viral pertence ao território das teorias conspirativas.

Não há provas credíveis de que:

Madre Teresa comandasse a maior rede de tráfico infantil da história.

O Vaticano tenha movimentado biliões ligados a tráfico de crianças.

Existisse uma ligação com Jeffrey Epstein ou a rede de exploração sexual dele.

Hillary Clinton tenha criado um orfanato secreto com ela ligado ao desaparecimento de crianças.

Robert Maxwell ou a filha Ghislaine Maxwell fizessem parte de uma rede construída por Madre Teresa.

Essas ligações aparecem sobretudo em textos virais da internet, sem documentação judicial ou investigação jornalística sólida.

4. Porque estas histórias aparecem

A razão é conhecida. Quando uma figura é colocada durante décadas num pedestal absoluto, qualquer escândalo ou crítica posterior gera reacções extremas.

Assim surgem dois extremos, o mito da santa perfeita, ou a teoria da grande conspiração mundial.

A realidade histórica costuma estar algures no meio.

5. Conclusão clara

Respondendo directamente à pergunta.

Verdade, existem críticas sérias, relações com doadores controversos e escândalos pontuais em instituições da congregação.

Meia verdade, problemas em alguns orfanatos foram ampliados para parecer uma rede mundial organizada.

Mentira ou sem prova, a narrativa de uma gigantesca operação internacional de tráfico infantil dirigida por Madre Teresa.

O espírito crítico que me acompanhava já na infância continua a ser o instrumento mais seguro para lidar com histórias desta natureza. Nem aceitar cegamente a imagem santificada, nem aceitar sem provas acusações gigantescas que circulam nas redes.

Questionar continua a ser a melhor defesa contra o erro. E contra a manipulação.

Joao Carlos Quelhas

Revista Repórter X / Repórter Editora

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