Um momento histórico nas montanhas
Há obras que parecem apenas engenharia, mas depois há aquelas que carregam peso humano e simbólico. O avanço no segundo túnel do Gotardo encaixa perfeitamente nesta segunda categoria.
Quando a tuneladora atingiu a zona de falhas norte, o ambiente mudou. Segundo o diretor do OFROU, Jürg Röthlisberger, este é “o troço de estrada mais emocional da Suíça”. E percebe-se porquê: não é apenas pedra a ser removida, é resistência natural a ser vencida com precisão e paciência.
O papel da tradição mineira
Num gesto carregado de simbolismo, um mineiro atravessou primeiro a zona instável com uma estátua de Santa Bárbara. Para quem acompanha este tipo de obras, este ritual não é apenas tradição — é respeito pelo perigo e pelo esforço humano.
Confesso que estas imagens me fazem parar. Num mundo cada vez mais tecnológico, ver estes gestos mantém viva uma ligação quase ancestral ao trabalho subterrâneo.
O progresso entre norte e sul
Desde fevereiro de 2025, o avanço a partir de Göschenen tem sido constante, sobretudo em granito. A média de cerca de 35 metros por dia impressiona, mas também revela a dureza do terreno.
A ligação entre o norte e o sul está prevista para 2027, e cada metro escavado aproxima não só regiões, mas também histórias de trabalho coletivo.
Entre as equipas, nota-se ainda a presença de mineiros portugueses, um detalhe que acrescenta diversidade e reforça a dimensão internacional da obra. Uma bandeira de Portugal entre o aço e a rocha não passa despercebida.
Um túnel com futuro controlado
O novo túnel terá 16,9 km e deverá abrir em 2030. Substituirá e permitirá renovar o atual, em funcionamento desde 1980.
Apesar da dimensão, não haverá aumento de capacidade: ambos os túneis terão apenas uma faixa por sentido. Uma decisão que, na minha perspetiva, mostra uma tentativa de equilíbrio entre mobilidade e segurança ambiental.
No fim, mais do que uma infraestrutura, este projeto parece um lembrete de como a engenharia ainda depende profundamente de pessoas, coragem e memória.
- Sexo, cultura e as verdades que ninguém gosta de discutir:
- “Lei Centeno”: A proposta de Ventura para limitar as pensões e o que a Suíça nos pode ensinar
- Em média europeia são os portugueses que mais horas trabalham.
- Portugal no Conselho de Segurança da ONU: influência ou apenas mais um lugar à mesa?
- Investimento imobiliário em Portugal: Capital espanhol acelera no norte e impulsiona mercado comercial


Seja o primeiro a comentar