Profundo descontentamento pela forma como foi conduzido o debate na Casa do Benfica de Genebra.
Ex.ma Senhora Cônsul-Geral,
Escrevo esta carta porque aquilo que aconteceu em Genebra não pode ficar sem resposta.
Desloquei-me acompanhado por 12 pessoas provenientes de cinco cantões suíços. Algumas fizeram mais de quatro horas para cada lado. Entre elas estavam Lesados da SUVA, pessoas afectadas por processos da KESB após acidentes de trabalho terem destruído as suas vidas financeiras, mães que continuam a lutar pelos seus filhos, pais que vivem situações semelhantes e cidadãos que procuravam respostas para problemas graves que vivem há anos.
O que encontrámos não foi um verdadeiro debate!
Encontrámos uma sessão constantemente interrompida, condicionada e controlada.
Desde o início ficou a sensação de que determinados assuntos não eram bem-vindos.
Sempre que surgiam temas relacionados com os Lesados da SUVA, com a KESB, com os problemas das famílias, com a falta de apoio aos acidentados, com os Deputados, com os Conselheiros das Comunidades, com o papel do Embaixador ou com as responsabilidades das instituições, surgiam interrupções sucessivas.
A Senhora Cônsul cortou a palavra a mim e a vários participantes vezes sem conta.
E o mais grave foi precisamente cortar a palavra!
Foi uma enorme falta de educação da Senhora Cônsul de Genebra interromper constantemente quem tinha feito centenas de quilómetros para estar presente e expor problemas reais.
Quem participa num debate tem o direito de concluir o seu raciocínio, sobretudo quando está a falar de acidentes de trabalho, de invalidez, de dificuldades económicas, de famílias destruídas, de processos da KESB e de cidadãos que há anos procuram ajuda sem serem ouvidos.
A Senhora Cônsul interrompeu repetidamente a minha intervenção e a de outros participantes. Em vez de ouvir, cortava a palavra. Em vez de permitir que as pessoas terminassem os seus testemunhos, criava novas interrupções.
Em vez de facilitar o debate, dificultava-o.
Aquilo que muitos dos presentes sentiram foi uma profunda falta de respeito pelos participantes e pelo esforço que fizeram para estar ali.
E o mais grave é que, ao cortar constantemente a palavra, não estava apenas a interromper uma pessoa. Estava a impedir que todos os presentes ouvissem informações, denúncias, experiências, críticas, propostas e testemunhos que poderiam ser úteis para compreender melhor a realidade vivida por muitos portugueses na Suíça.
Cada vez que a palavra era cortada, perdia-se conhecimento!
Perdiam-se explicações.
Perdiam-se denúncias.
Perdiam-se testemunhos.
Perdiam-se oportunidades de aprendizagem para todos os presentes.
Foi precisamente esta atitude, considerada por muitos como mal educada, desnecessária e incompatível com a função de moderadora, que levou várias pessoas a ficarem indignadas e algumas até a abandonarem a sala antes do final da sessão.
Os oradores tiveram muito tempo para falar!
Os participantes tiveram pouco.
As pessoas que vieram de longe para colocar perguntas e apresentar testemunhos viram o seu tempo constantemente reduzido.
Mas quando a Senhora Cônsul interrompia, falava e voltava a falar, esse tempo já não parecia ter importância.
A verdade é simples!
Cada interrupção retirou tempo ao público.
Cada interrupção retirou tempo a quem tinha algo para dizer.
Cada interrupção retirou conhecimento, experiências, denúncias e perguntas que poderiam ajudar outras pessoas.
Aquilo que deveria ter sido um espaço de aprendizagem transformou-se várias vezes num espaço de bloqueio da palavra.
Quem estava na assistência não foi a Genebra para ouvir constantemente a moderadora!
Foi para falar.
Foi para colocar questões.
Foi para denunciar situações.
Foi para procurar respostas.
E foi precisamente isso que muitas vezes não foi permitido.
Importa igualmente esclarecer que o objectivo principal da sessão era a prevenção dos acidentes de trabalho.
Ninguém contesta a importância da prevenção.
Pelo contrário, prevenir acidentes é essencial.
Mas a realidade não termina quando acontece o acidente.
Na verdade, para muitas pessoas, é precisamente aí que começam os maiores problemas.
Foi por essa razão que utilizei a minha intervenção para abordar outros temas directamente ligados aos acidentes de trabalho e às suas consequências.
Quando uma pessoa sofre um acidente grave, muitas vezes perde capacidade de trabalho, vê os seus rendimentos diminuírem drasticamente e entra numa luta constante com seguradoras, instituições e processos administrativos.
A quebra dos rendimentos conduz frequentemente à pobreza, ao endividamento, à perda da estabilidade familiar e ao desgaste psicológico.
Muitas famílias deixam de conseguir suportar as despesas normais da vida diária.
E quando existem filhos, a situação torna-se ainda mais grave!
É precisamente aqui que entram muitos dos problemas que procurei expor.
Quando os direitos não são pagos atempadamente, quando os rendimentos caem, quando as famílias entram em dificuldades económicas e sociais, surgem por vezes intervenções de instituições como a KESB.
Por isso, na minha opinião, estes assuntos estão todos ligados entre si!?
O acidente está ligado à perda de capacidade de trabalho.
A perda de capacidade de trabalho está ligada à redução dos rendimentos.
A redução dos rendimentos está ligada às dificuldades familiares.
As dificuldades familiares estão ligadas ao risco de perda da estabilidade do agregado.
E essa realidade pode acabar por conduzir à intervenção de instituições sobre famílias que já se encontram fragilizadas.
Por esse motivo, não faz sentido falar apenas da prevenção dos acidentes e ignorar tudo aquilo que acontece depois do acidente.
Não faz sentido discutir apenas o início do problema e fechar os olhos às suas consequências.
Foi exactamente por isso que considerei importante falar dos Lesados da SUVA, dos pais e mães que lutam contra decisões da KESB, dos Conselheiros das Comunidades, dos Deputados eleitos pela emigração e do papel da Embaixada e dos Consulados.
Os problemas dos portugueses emigrantes não são apenas problemas técnicos!
São problemas humanos.
São problemas familiares.
São problemas sociais.
E são também problemas políticos.
Quem representa os portugueses no estrangeiro deve ouvir estas preocupações e ajudar a encontrar soluções.
Aquilo que procurei fazer em Genebra foi precisamente dar voz a pessoas que raramente são ouvidas e chamar a atenção para realidades que afectam muitas famílias portuguesas residentes na Suíça.
Se alguns destes temas causaram desconforto, isso não altera a sua importância nem a necessidade de serem discutidos publicamente.
A Senhora Cônsul demonstrou, na minha opinião, não estar preparada para moderar um debate com temas desta natureza.
Falar de acidentes de trabalho não é falar de festas!
Falar de invalidez não é falar de turismo.
Falar de famílias destruídas por dificuldades económicas não é falar de cerimónias protocolares.
Falar de mães e pais que lutam pelos seus filhos não é falar de assuntos ligeiros!
Falar de Lesados da SUVA que vivem há anos sem respostas não é falar de assuntos ligeiros.
É necessário saber ouvir.
É necessário ter calma.
É necessário ter respeito pela dor das pessoas.
Infelizmente, aquilo que muitos participantes sentiram foi precisamente o contrário.
Uma postura imprevisível.
Uma postura nervosa.
Uma postura pouco preparada para ouvir opiniões incómodas.
Uma postura que deu a sensação de que estava ali por obrigação e contrariada.
Em vez de ouvir, muitas vezes limitou-se a interromper!
Em vez de permitir o desenvolvimento dos temas, limitou-se a criar instabilidade.
Em vez de facilitar o diálogo, dificultou-o.
Em vez de unir as pessoas, criou tensão.
Foi extremamente desagradável verificar que quem percorreu centenas de quilómetros para estar presente teve menos espaço para falar do que quem representava a mesa.
Importa ainda dizer, sem rodeios, que várias pessoas abandonaram a sala durante o debate!
E não abandonaram a sala por causa da SUVA, da UNIA ou da médica presente.
Abandonaram a sala devido à forma como a sessão estava a ser conduzida pela Senhora Cônsul.
A falta de educação demonstrada em vários momentos, as interrupções constantes, a incapacidade de ouvir até ao fim e a tentativa permanente de controlar o rumo das intervenções criaram um ambiente de tensão e desagrado entre muitos dos presentes.
Aquilo que mais incomodou não foi apenas o corte da palavra!
Foi a sensação clara de que determinados assuntos não eram do agrado da Senhora Cônsul.
Sempre que se falou dos Conselheiros das Comunidades, dos Deputados eleitos pela emigração, do papel do Embaixador ou da necessidade de estas iniciativas serem realizadas em sede própria, surgiam interrupções e tentativas de encerrar ou desviar a discussão.
Mas esses temas são legítimos!
Os portugueses têm o direito de perguntar onde estão os seus representantes!?
Têm o direito de perguntar porque não são organizadas reuniões específicas com os Lesados da SUVA?
Têm o direito de perguntar porque não existem encontros dedicados aos pais e mães que lutam contra decisões da KESB?
Têm o direito de perguntar porque motivo tantas pessoas pedem ajuda há anos e continuam sem respostas concretas?
Foi precisamente para falar dessas realidades que eu, João Carlos Quelhas, estive presente em noma da RepórterX e dos Lesados e Mãesque me acompanharam…!
O meu papel não é agradar às instituições.
O meu papel não é repetir discursos politicamente confortáveis.
O meu papel é acordar os adormecidos para realidades que muitos preferem não ver.
O meu papel é dar voz a quem pede ajuda.
O meu papel é levar para os debates públicos as preocupações daqueles que não têm microfone, daqueles que não têm poder, daqueles que escrevem cartas, enviam e-mails, telefonam e continuam sem ser ouvidos.
Quando se corta a minha palavra, não se corta apenas a minha voz.
Corta-se também a voz dos Lesados da SUVA.
Corta-se a voz das mães que lutam pelos filhos.
Corta-se a voz dos pais que lutam pelos filhos.
Corta-se a voz daqueles que enfrentam processos da KESB.
Corta-se a voz daqueles que esperam que alguém tenha coragem de falar por eles.
Foi isso que muitos participantes sentiram em Genebra!
E foi por isso que tantas pessoas saíram desiludidas de um encontro que deveria ter servido para ouvir os cidadãos e não para os limitar.
Quero igualmente deixar claro que transmiti uma mensagem directa sobre a necessidade de estas iniciativas deixarem de ser realizadas em ambientes de clubismo e passarem a ser realizadas em sede própria, junto das entidades responsáveis.
Os problemas dos Lesados da SUVA devem ser debatidos com a SUVA e com os nossos diplomatas em sede própria.
Os problemas laborais devem ser debatidos com as entidades competentes.
Os problemas relacionados com a KESB devem ser debatidos com as entidades responsáveis e com os pais afectados e os nossos diplomatas.
Os Consulados, a Embaixada, os Deputados eleitos pela emigração e os Conselheiros das Comunidades não podem continuar afastados destas realidades.
Foi precisamente quando estes assuntos foram colocados em cima da mesa que senti maior resistência, mais interrupções e menos vontade de ouvir, mas não me calei pela liberdade de expressão.
Mas não podemos continuar a fingir que estes problemas não existem?
Não podemos continuar a organizar debates sobre consequências sem ouvir quem sofre as consequências?
Não podemos continuar a falar dos cidadãos sem ouvir os cidadãos?
Não podemos continuar a ignorar quem pede ajuda?
Quem organiza encontros desta natureza tem uma obrigação simples!
Ouvir.
Ouvir até ao fim.
Ouvir aquilo de que gosta.
E ouvir aquilo de que não gosta.
Porque a função de quem modera não é escolher os temas que lhe agradam.
A função de quem modera é permitir que todos os temas sejam discutidos.
O que aconteceu em Genebra deixou muitos participantes desiludidos, revoltados e com a sensação de que a sua voz foi constantemente empurrada para segundo plano. Manifestaram-se no local e nas redes sociais…
E quando se retira a palavra aos cidadãos, retira-se também uma parte da confiança que estes depositam nas instituições.
Esperamos melhor com moderação e cooperação.
Com os melhores cumprimentos,
João Carlos Veloso Gonçalves, “Quelhas”
Revista Repórter X
Revista Repórter X / Repórter Editora
Publicado 17 minutes ago por Revista Repórter X / Repórter Editora
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