Passadas mais de cinco décadas sobre o 25 de Abril, é inegável que Portugal mudou profundamente. A liberdade, a democracia e os direitos fundamentais conquistados continuam a ser pilares essenciais da sociedade portuguesa. No entanto, para muitos portugueses que vivem fora do país, essa democracia ainda não se faz sentir de forma plena.
Como emigrante, reconheço o valor histórico e simbólico do 25 de Abril. Trouxe-nos voz, trouxe-nos direitos e abriu caminho a um país mais justo. Mas também é verdade que, ao longo dos anos, se criou uma narrativa que tende a destacar apenas o que foi alcançado, deixando na sombra aquilo que ainda falta concretizar.
Um desses aspetos é o acesso ao voto. Apesar de ser um direito básico, milhares de portugueses no estrangeiro continuam a enfrentar obstáculos reais para o exercer. A distância aos consulados, as limitações do voto postal e a dependência de sistemas pouco eficientes fazem com que, na prática, nem todos tenham as mesmas condições de participação cívica.
A proposta de implementação de voto eletrónico surge como uma oportunidade importante. Pode representar um passo decisivo na inclusão democrática de quem vive fora do país. No entanto, há um risco: que esta medida se torne apenas mais um gesto simbólico, sem impacto real se não for acompanhada por uma reforma séria e abrangente.
A democracia não pode ser seletiva nem depender da localização geográfica. Não pode terminar onde começa a diáspora. Se o 25 de Abril significou igualdade e participação, então é fundamental garantir que esses princípios são aplicados de forma efetiva a todos os cidadãos.
Celebrar Abril é importante, mas também é necessário questionar. Questionar o que ainda não foi feito, o que ficou por cumprir e o que continua a excluir muitos portugueses de direitos que, em teoria, já lhes pertencem.
Talvez a verdadeira homenagem ao 25 de Abril não esteja apenas na memória do passado, mas na coragem de enfrentar as suas falhas e completar aquilo que ainda ficou por fazer.
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