O valor que levanta dúvidas
Fala-se de um investimento de cerca de 40 mil euros num sistema de monitorização de redes sociais. À primeira vista, pode parecer um valor modesto. No entanto, o que realmente me inquieta não é o montante, mas sim o propósito por trás desta ferramenta.
Hoje em dia, a inteligência artificial consegue analisar milhares de publicações em segundos. Consegue identificar padrões, sentimentos e até prever crises. Isso pode ser útil, claro. Mas também pode ser perigosamente intrusivo, dependendo de quem está a usar e com que intenção.
A linha entre ouvir e vigiar
Sempre acreditei que um governo deve ouvir os cidadãos. Isso faz parte de qualquer democracia saudável. Mas existe uma linha muito clara entre ouvir e vigiar. E sinto que estamos a aproximar-nos dessa linha.
Quando um sistema permite acompanhar o que as pessoas dizem online, identificar críticas e até reagir rapidamente, surge uma questão inevitável: quem está realmente a ser protegido aqui?
Será a imagem do governo? Ou a liberdade de expressão dos cidadãos?
Experiência pessoal que levanta alertas
Falo também por experiência própria. Já recebi emails a questionar o conteúdo das minhas publicações. Não foram ameaças diretas, mas deixaram-me desconfortável. Fiquei com a sensação de estar a ser observado.
E isso muda tudo.
A partir do momento em que sentimos que alguém está a analisar o que dizemos, começamos a pensar duas vezes antes de publicar. Esse é o verdadeiro problema: a autocensura silenciosa.
Não é preciso apagar páginas ou bloquear grupos para limitar a liberdade. Basta criar um ambiente onde as pessoas têm medo de falar.
Jornalismo sob pressão
Outro ponto que me preocupa é a possibilidade de classificar jornalistas. Mesmo que seja apenas para análise interna, isso levanta questões sérias.
Os jornalistas devem ser livres para questionar, investigar e criticar. Se começam a ser avaliados, classificados ou monitorizados de perto, isso pode afetar a sua independência.
E sem imprensa livre, a democracia enfraquece.
Democracia ou controlo?
Não estou a dizer que a tecnologia é o problema. Pelo contrário. A tecnologia pode ajudar a melhorar a comunicação, a combater desinformação e a aproximar governos das pessoas.
Mas tudo depende de como é usada.
Se for usada para compreender melhor os cidadãos, ótimo.
Se for usada para os controlar ou intimidar, então temos um problema sério.
Porque, no final, a questão não é tecnológica. É política e ética.
Reflexão final
Hoje pergunto-me: onde está o equilíbrio? Até que ponto aceitamos ser monitorizados em nome da “gestão de comunicação”?
A democracia não desaparece de um dia para o outro. Ela desgasta-se lentamente, em pequenas decisões, muitas vezes justificadas como necessárias.
E talvez seja isso que mais me preocupa.
Não o valor pago.
Mas o precedente criado.

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