Um processo, duas crianças e uma decisão que não se explica e causa dor a uma mãe

Um processo, duas crianças e uma decisão que não se explica e causa dor a uma mãe
Um processo, duas crianças e uma decisão que não se explica e causa dor a uma mãe

Na Suíça desenha-se um caso que não cabe no silêncio nem na indiferença, um caso onde algo está mal, muito mal, de uma forma que não pode ser suavizada nem escondida por linguagem técnica ou relatórios bem escritos.

Em Glarus corre um processo que, lido com atenção e sem filtros, revela mais do que uma simples intervenção institucional, revela um caminho construído passo a passo até um desfecho que levanta dúvidas sérias sobre a forma como tudo foi conduzido desde o início.

Uma mãe e duas filhas viviam na casa de um homem, partilhavam o mesmo espaço, a mesma rotina, uma convivência que, sendo imperfeita como tantas outras, era ainda assim o ponto de partida daquela família, até ao momento em que esse mesmo homem avança com uma queixa junto da KESB e desencadeia um processo que acaba por inverter completamente a ordem natural das coisas, afastando a mãe e deixando as crianças sob a sua responsabilidade.

É aqui que tudo começa a ganhar outra dimensão. Começa a mentira!

Começa a mentira, começa o enredo e o sofrimento.

Começa a mentira quando um homem apresenta a sua versão como verdade e essa versão é acolhida sem o devido confronto, começa o enredo quando essa mesma narrativa é registada e validada pela KESB, transformando palavras em decisões e decisões em destino, e começa o sofrimento quando se percebe que os documentos mostram apenas um lado da verdade, faltando a verdade da mãe, omitida, silenciada, ausente de forma que não pode ser ignorada, porque os motivos ali apresentados surgem alinhados num único sentido, repetidos, reforçados, construídos como justificação para um afastamento que, visto no seu conjunto, levanta a suspeita de assentar em versões que não correspondem à realidade inteira, versões que acabam por servir para lhe retirar as filhas, enquanto a sua voz não entra no processo com o mesmo peso, com a mesma presença, com a mesma possibilidade de defesa, e assim, entre o que é dito e o que é omitido, cresce uma história incompleta onde a verdade fica partida e o sofrimento se torna inevitável.

Porque não estamos a falar de uma transição gradual nem de uma decisão isolada, estamos a falar de uma substituição, onde a mãe sai e um terceiro desconhecido permanece, onde o lugar de origem é ocupado por quem não tinha esse lugar e esse direito, e onde essa mudança passa a ser, ao longo do tempo, justificada, reforçada e consolidada através de sucessivos relatórios forjados.

Os documentos analisados mostram um padrão coerente, mas também fechado, onde as crianças são descritas como estáveis, integradas, com uma vida organizada, com escola, actividades e acompanhamento adequado, enquanto o ambiente onde vivem é constantemente apresentado como seguro e estruturado, criando uma imagem sólida que dificilmente é contestada dentro do próprio processo.

Ao mesmo tempo, a mãe surge repetidamente associada a conflito, a tensão, a incapacidade de aceitar a situação, a dificuldades na relação, como se a sua presença fosse, por definição, desestabilizadora, e como se o seu sofrimento fosse utilizado como argumento contra ela própria.

As visitas são supervisionadas, limitadas, condicionadas, afastadas daquilo que seria uma relação natural entre mãe e filhas, e essa limitação vai-se tornando regra, vai-se tornando hábito, vai-se tornando normalidade dentro da lógica do processo.

Ainda assim, os próprios documentos deixam escapar elementos que não encaixam totalmente nessa construção, nomeadamente quando referem que as crianças desejam uma melhor relação com a mãe, que fazem perguntas, que demonstram sinais de ligação que não foi quebrada, o que contraria, pelo menos em parte, a ideia de afastamento emocional completo.

Ao longo do processo, cada relatório reforça o anterior, cada avaliação sustenta a seguinte, criando uma linha contínua de interpretação onde raramente surge uma ruptura ou um verdadeiro contraditório, e onde a voz da mãe aparece quase sempre mediada, descrita por terceiros, sem o mesmo espaço, sem o mesmo peso, sem a mesma presença directa.

Essa ausência levanta uma questão central.

Até que ponto estamos perante uma avaliação equilibrada?

A leitura global dos documentos deixa a sensação de que a narrativa foi sendo construída numa única direcção, com repetições consistentes dos mesmos argumentos, das mesmas descrições e das mesmas conclusões, o que levanta a possibilidade de estarmos perante uma versão consolidada mais do que perante uma análise verdadeiramente aberta.

Surge então uma convicção difícil de ignorar.

Há elementos neste processo que apontam para uma construção sustentada em versões que beneficiam um único desfecho, o de manter as crianças com esse homem, o que levanta suspeitas sérias sobre a existência de distorções ou omissões ao longo do caminho.

A mãe, afastada e sem acesso pleno ao que se passa, carrega consigo uma dúvida que não consegue afastar, a possibilidade de ter ocorrido algo mais grave, nomeadamente um eventual abuso, uma suspeita que não pode confirmar, que não consegue provar, mas que permanece como pensamento constante, alimentado pela distância, pelo silêncio e pela falta de transparência.

Essa suspeita, ainda que não comprovada, faz parte do contexto emocional deste caso e não pode ser ignorada, porque nasce precisamente das circunstâncias em que tudo aconteceu.

O que estes documentos revelam, no seu conjunto, não é apenas um processo administrativo, mas um percurso onde decisões sucessivas foram moldando a realidade até a tornarem aparentemente inevitável, deixando para trás uma mãe que perdeu o lugar que lhe era natural e duas crianças cuja história continua a ser escrita por terceiros.

A memória permanece, o amor não desaparece, a ligação resiste mesmo quando é empurrada para longe, porque há coisas que não se apagam por decisão nem se substituem por relatório. 

Os pais que lutam nestas circunstâncias pelos seus filhos, são muitas vezes acusados de precisar de psicólogo ou de psiquiatra, quando são aquelas mentes fechadas que necessitam desses serviços. A maioria deles nem sabe o que é ser pai ou mãe ou avós!…

A Revista Repórter X teve acesso à documentação completa que sustenta este processo, a qual se encontra disponível para consulta no final desta publicação.

autor: Quelhas

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