Conheço bem essa aldeia. Tinha um forno de cozer broa para toda a população.
Tanques públicos. Havia muitos burros, ovelhas, cabras e cães a guardar os rebanhos. Bons fomeiros à lareira. Gente hospedeira.
Cheguei a Travassos do Rio ainda novo, levado mais pela vida do que pela vontade.
A serra parecia não ter fim e o frio cortava a pele logo ao cair da tarde. Fiquei hospedado na casa que construímos e dali outros contractos vieram. Cozinhava ao fogão, enquanto na aldeia muitos ainda cozinhavam à lareira. As casas eram quase todas de pedra, com telhados de palha ou telhas de barro, e nas casas que visitava a lareira nunca se apagava. A dona da casa dizia que em Barroso o fogo era quase da família, porque sem ele ninguém sobrevivia ao Inverno.
Naquela zona havia poucas árvores. O pouco que existia eram carvalhos e codessos espalhados pelas encostas frias da serra. Havia muito mato grosso, que as pessoas cortavam e carregavam às costas para queimar nas lareiras durante os longos Invernos. As aldeias eram isoladas, ligadas apenas por caminhos batidos de terra, onde existiam bebedouros de pedra para os animais matarem a sede depois das subidas duras da montanha.
Nos primeiros dias estranhei o silêncio. Não havia trânsito, nem pressa, nem luzes de cidade. Apenas o som dos animais, o vento a bater nas fragas e os cães a ladrar durante a noite. Havia homens que ainda percorriam caminhos antigos com burros carregados de lenha, batatas e sacos de milho. As mulheres iam aos tanques públicos lavar roupa, mesmo com as mãos quase geladas pela água fria.
Vou contar uma história real de Travassos do Rio. Os lobos enganavam os cães para os atacar. Vinham à aldeia, os cães corriam atrás deles e, na próxima esquina, os lobos escondiam-se e esperavam os cães para os matar, tal como matavam os burros que pernoitassem ali na serra, ao pé das casas.
Uma noite ouvi um barulho estranho perto da casa. O Sr. Branco levantou-se logo da cadeira e mandou-me ficar quieto. Pegou numa lanterna velha e saiu para a rua sem medo. O filho Jorge foi atrás dele, ainda meio estremunhado do sono. Eu acompanhei-os em silêncio. Ouvíamos os cães a ladrar desalmadamente perto dos lameiros. Lá ao fundo, no meio da escuridão, viam-se sombras a mover lentamente. O Sr. Branco olhou para nós e disse baixinho: “Hoje andam cá.”
Os cães correram serra acima atrás de dois vultos. Um velho da aldeia apareceu à porta e gritou para os chamar de volta, mas já era tarde. Os lobos tinham feito o mesmo truque de sempre. Atraiam os cães para longe da aldeia, escondiam-se entre as pedras e atacavam em grupo. Na manhã seguinte apareceu um cão morto perto de um caminho de terra. Ninguém chorou em voz alta, porque naquela terra a morte fazia parte da vida desde sempre.
Depois dali era Tourém, fronteira com Espanha, onde outrora havia contrabando.
Montalegre ficava relativamente perto, tal como Vendas Novas. Havia algumas padarias caseiras no meio do nada, sucatas e oficinas de automóveis. A couve penca perdurava, a colheita de batata era abundante. Terras gélidas, onde a água parada congela no Inverno. Bebíamos anis na tasca para aquecer.
As aldeias começaram lentamente a mudar.
Grande parte dos jovens emigrava para França à procura de uma vida menos dura.
Muitos regressavam anos depois, no Verão, já com carros diferentes e algum dinheiro no bolso. Foi nessa altura que começaram a surgir casas modernas em betão e com telhado. Até ali, quase todas as casas eram de pedra escura e algumas ainda tinham telhados de palha. Parecia que duas épocas diferentes conviviam lado a lado na mesma montanha.
Numa dessas noites frias, a tasca enchia-se de fumo, copos e histórias antigas. Falava-se de contrabandistas, de lobos, de homens perdidos na neve e de famílias separadas pela emigração. Cada rosto carregava marcas de trabalho duro e silêncio antigo.
Com o passar do tempo comecei a sentir aquela terra como minha. Aprendi a cozinhar em panelas antigas penduradas sobre o lume, ajudei nas colheitas e percorri caminhos cobertos de geada logo ao amanhecer. Havia dureza, pobreza e solidão, mas também uma verdade humana que hoje custa encontrar.
Lembro-me de poucos nomes, um deles ficou marcado, a Professora da família Branco. Já lá voltei e quero voltar de novo ao lugar onde fui feliz. Lá cozinhei muitas vezes, que o diga o Manel Preto!
- Sexo, cultura e as verdades que ninguém gosta de discutir:
- “Lei Centeno”: A proposta de Ventura para limitar as pensões e o que a Suíça nos pode ensinar
- Em média europeia são os portugueses que mais horas trabalham.
- Portugal no Conselho de Segurança da ONU: influência ou apenas mais um lugar à mesa?
- Investimento imobiliário em Portugal: Capital espanhol acelera no norte e impulsiona mercado comercial


Seja o primeiro a comentar