Esclarecimento e elucidação, política sem cultura e palavras sem pensamento

Esclarecimento e elucidação, política sem cultura e palavras sem pensamento. O ponto de partida deste debate não é pessoal, é político.
Esclarecimento e elucidação, política sem cultura e palavras sem pensamento. O ponto de partida deste debate não é pessoal, é político.

Esclarecimento e elucidação, política sem cultura e palavras sem pensamento. O ponto de partida deste debate não é pessoal, é político.. O ponto de partida deste debate não é pessoal, é político. Um deputado eleito pelo círculo da Europa publicou, nas suas redes sociais, uma posição sobre o IRS e o IVA. Defendeu que quem recebe uma reforma paga IRS, gasta todo o rendimento ao longo do mês e, em tudo o que gasta, paga IVA, concluindo que, no fim, o Estado fica com cerca de 53% do esforço total. Trata-se de uma leitura política e social da vida real, legítima no espaço público. O texto não visava ninguém em particular.

Um rendimento ou uma reforma de um emigrante no valor de 2.000 €, de acordo com o escalão em vigor à data de hoje, é taxado em 32,75%. Quando o reformado recebe a sua pensão, não a vai esconder debaixo do colchão, até porque já não existem colchões de palha, e mesmo que existissem, não se vive de palha. Esse dinheiro é necessário para viver. Portanto, o IRS mais o IVA, com todo o valor pago, vai matematicamente 53,5% para o Estado, embora as contas não sejam feitas assim, IRS é sobre a reforma e IVA é sobre as compras. Se comprar, gasta, se guarda o dinheiro, poupa o IVA porque não teve consumo.

Matematicamente, o deputado tem razão, sabe usar a calculadora ou fazer contas de cabeça. Agora, as contas não são assim feitas, mas a teoria está certa e dá-se razão ao deputado.

Com esse rendimento pagam-se despesas básicas, como a água, a electricidade e a compra de géneros alimentares. Considerando que a taxa normal do IVA é de 23% e que alguns bens essenciais são tributados a 6%, o cabaz médio de despesas mensais, num total de 2.000 €, faz com que a taxa média de IVA desça para cerca de 22,25%.

Somando a carga fiscal directa com a carga fiscal indirecta, chegamos a uma taxa global próxima dos 53%. Estes são números simples, não são opinião nem retórica. São contas feitas sobre a vida real, sobre quem trabalhou uma vida inteira e continua a pagar, mesmo quando já não tem força para produzir mais.

A reacção surgiu depois, num artigo publicado no Bom Dia Luxemburgo, assinado por Manuel Campos. Nesse texto, o autor escreve que o deputado “gosta muito de frases pesadas, e mentindo, dando uma no cravo e outra na ferradura”. Acrescenta que o deputado afirmou que “os números apurados nas eleições presidenciais de 2026 consolidam uma tendência de mudança já iniciada nas anteriores legislativas” e que “o socialismo foi ‘varrido’ da diáspora”, comentando de imediato, “isto é o que acontece, quando a boca fala sem consultar o cérebro”, qualificando essas declarações como “uma mentira”.

O mesmo texto fala em “engodo”, em “propaganda de um partido de mentirosos e doentes mentais”, acusa comunidades inteiras de se terem deixado levar pela extrema-direita, e refere declarações feitas à CNN, onde surge a fórmula “PS 1” e “PS 2”, “o fim do domínio do Partido Socialista (PS)”, chamando-lhe “PS 1” e anunciando como objectivo derrotar o “PS 2”, referindo-se ao PSD.

A linguagem endurece e o plano político começa a confundir-se com o ataque pessoal.

A partir daí, Manuel Campos entra no terreno biográfico. Recorda uma entrevista ao LusoJornal, escreve que o deputado é natural de Viana do Castelo, afirma que “esteve vários anos a residir e a trabalhar de forma ilegal em França”, que “foi expulso do país por duas vezes”, e que “foi apenas durante o mandato do socialista François Mitterrand que conseguiu obter a sua carte de séjour”.

Escreve ainda que “varrer o socialismo” é comportamento de “um mentecapto e de alguém mal agradecido”, citando a frase “só se faziam papéis em França a quem fosse empresário”. Mais adiante, acusa André Ventura de mentir sobre datas de emigração e termina com a expressão atribuída ao deputado, “o Chega está-se a cagar para os emigrantes”.

Estas expressões não são interpretação, são citações. São elas que mostram até onde desceu a linguagem usada em espaço público.

Depois da publicação deste artigo, o deputado José Dias Fernandes enviou comunicações à Revista Repórter X. Não escreveu publicamente, não respondeu ao autor do artigo, escreveu à redacção. É a Revista Repórter X que assume a decisão editorial de citar esse conteúdo, porque ele funciona como desmentido directo das acusações feitas.

Num desses textos, o deputado escreve, “eu saí de Portugal com a quarta classe, aos 20 anos já trabalhava com o OTKD, programa de engenharia e cálculos de grandes obras, fiz oito estágios, cheguei a director de obras aos 27 anos, faço a maior parte das vezes contas de cabeça e sou eu o burro”. Acrescenta que é do tempo da máquina calculadora, das contas feitas à cabeça, e que sabe fazer contas, e bem.

O deputado responde em defensiva. Usa o termo “artista” para se referir a Manuel Campos, fala de balcões de emigrantes, fala de negócio, fala de clientela, fala de alegadas perdas de 90%. Tenta ligar a imagem de um homem ao número de clientes. Mistura política fiscal com lojas do cidadão. Uma coisa não tem a ver com a outra.

Este desabafo do deputado é uma resposta legítima à provocação gratuita, miserável e mal-educada de Manuel Campos, que transformou uma posição política publicada em rede social num ataque pessoal.  

A elucidação é simples e dura. Uma coisa é discordar politicamente de um deputado. Outra coisa é usar linguagem grosseira, insulto e ataque pessoal. Quem fala assim não suja a cara do outro, suja a sua própria cara perante quem lê. O outro torna-se a vítima do excesso.

Este texto não existe para ser bonito. Existe para marcar limites. Para lembrar que não é preciso sujar a própria cara com palavras para aparecer nos média. A política exige cabeça fria, memória e verdade. Quando isso se perde, perde-se também o futuro.

autor: Quelhas

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