Adoções Irregulares: Como a Suíça Ignorou o Tráfico de Crianças Chilenas nos Anos 80. Durante as décadas de 1970 a 1990, milhares de crianças foram retiradas das suas mães no Chile e adotadas por famílias na Suíça. Embora as adoções tenham sido apresentadas como legítimas, investigações posteriores revelaram que muitas dessas crianças foram arrancadas à força. Como resultado, hoje as vítimas exigem justiça, reconhecimento e reconexão com as suas famílias biológicas. De acordo com Swissinfo.ch, o envolvimento de instituições suíças e a falta de resposta a denúncias públicas mostram um cenário alarmante de negligência e cumplicidade.
O aumento das adoções internacionais
A partir do final da década de 1970, muitas famílias suíças passaram a adotar crianças estrangeiras. Nesse período, os motivos mais comuns eram o desejo frustrado de ter filhos, a escassez de órfãos na Suíça e a perceção de estar a ajudar uma criança carente. Por consequência, até ao ano 2000, mais de 15 mil crianças estrangeiras foram adotadas no país. O Chile tornou-se um dos principais países de origem, em parte devido à cor da pele das crianças, considerada mais próxima da europeia. Assim, pelo menos 384 crianças chilenas foram adotadas por casais suíços.
O sofrimento das mães e a realidade das crianças
Muitas mães jovens, solteiras e, em alguns casos, pertencentes a minorias indígenas, foram vítimas de coerção. Frequentemente, os hospitais declaravam falsamente que o bebé tinha nascido morto, enquanto em outras situações familiares ou assistentes sociais pressionavam as mães a entregar os filhos. Assim, milhares de crianças foram levadas à força e colocadas em processos de adoção fraudulentos. As consequências para essas mães e filhos foram devastadoras, já que durante décadas viveram na ignorância e na dor da separação.
Um exemplo marcante é o de Angeline-Lolita Masson, adotada aos três meses de idade por uma família suíça. Durante anos acreditou ter sido abandonada pela mãe biológica. No entanto, apenas recentemente descobriu que a mãe, Clementina Rosa Becerra León, foi coagida a entregar a filha. A história de Masson representa milhares de casos semelhantes e continua a ser um símbolo da luta pela verdade e pela reparação.
O papel do sistema judicial chileno
As investigações apontam que os tribunais chilenos foram fundamentais na rede de adoções irregulares. Juízes, advogados, funcionários hospitalares e assistentes sociais formavam um sistema que identificava as mães vulneráveis e as forçava a entregar os recém-nascidos. Como consequência, muitas crianças foram enviadas ao estrangeiro com documentos falsificados e declarações inventadas. No início de junho de 2025, um tribunal chileno emitiu um mandado de prisão contra um juiz e outras quatro pessoas envolvidas nestas práticas, demonstrando que a busca por justiça ainda continua ativa.
Apesar de terem passado mais de 30 anos, a lei chilena considera que estas adoções irregulares podem constituir violações de direitos humanos. Por isso, a prescrição legal pode ser suspensa, garantindo que os culpados ainda respondam judicialmente.
A cumplicidade das autoridades suíças
Em 1988, o jornal suíço Sonntags-Zeitung publicou uma investigação sobre o tráfico de crianças no Chile. O relatório denunciava uma rede criminosa que lucrava com a pobreza extrema, a ausência de planeamento familiar e a conivência da ditadura militar. Apesar dessas revelações, a Embaixada da Suíça em Santiago não só ignorou os abusos, como continuou a fornecer informações a casais interessados em adotar. Em alguns casos, os funcionários chegaram a indicar agências de adoção ou regiões com maior número de crianças disponíveis.
Dessa forma, em vez de atuar contra o tráfico de crianças, as autoridades suíças acabaram por incentivar o processo. Documentos oficiais demonstram que a embaixada manteve esse comportamento até ao início da década de 1990, agravando a responsabilidade do país neste escândalo.
A legalidade aparente dos documentos
Muitos dos documentos de adoção analisados apresentam uma aparência de legalidade. Em vários casos, existiam autorizações judiciais que permitiam a saída da criança do Chile, embora não houvesse provas de consentimento materno. Além disso, alguns relatórios descreviam a suposta situação precária das famílias biológicas, justificando a entrega da criança. No entanto, as investigações posteriores revelaram que pessoas forjaram muitas assinaturas e inventaram diversos testemunhos. Assim, a imagem de legalidade não passava de uma fachada para encobrir práticas criminosas.
O fim das adoções irregulares
Após o regresso da democracia ao Chile em 1990, o governo restringiu gradualmente as atividades das agências de adoção. Na década de 1990, o governo chileno implementou reformas para combater a corrupção e controlar as adoções internacionais. Em 1999, o Chile aderiu à Convenção de Haia, que regulamenta a cooperação internacional em matéria de adoções. Como resultado, as adoções ilegais para a Suíça terminaram. Contudo, as marcas profundas deixadas nas famílias continuam presentes até hoje.
As exigências das vítimas
Atualmente, milhares de vítimas ainda procuram os seus pais biológicos ou filhos perdidos. Organizações como Hijos y Madres del Silencio (HMS) trabalham para reconetar famílias e pressionam os governos a assumirem responsabilidades. As vítimas reivindicam a criação de um banco de dados de DNA, que ajudará a identificar familiares, porque muitos registos oficiais foram falsificados. Em junho de 2025, o governo chileno anunciou finalmente a criação deste banco, representando um passo importante na reparação histórica.
No entanto, vítimas como Angeline-Lolita Masson continuam a sentir-se abandonadas pelas autoridades suíças. Apesar de o governo suíço ter pedido desculpa em 2020, muitas vítimas consideram que esse gesto não foi suficiente. Elas exigem não apenas compensações financeiras, mas também apoio psicológico, institucional e, sobretudo, reconhecimento público.
A luta pela justiça e a memória histórica
A busca por justiça vai além da compensação financeira. Para muitas vítimas, a maior necessidade é o reconhecimento moral dos erros cometidos e a possibilidade de reconstruir laços familiares. O caso chileno-suíço demonstra como sistemas políticos, judiciais e diplomáticos podem falhar gravemente, deixando marcas profundas em gerações inteiras. Além disso, reforça a importância de se criar mecanismos internacionais mais rigorosos para proteger os direitos das crianças em situações de vulnerabilidade.
Conclusão
A história das adoções irregulares entre o Chile e a Suíça revela um dos capítulos mais sombrios da diplomacia e do sistema de justiça internacional. Apesar das investigações, muitas famílias continuam em busca de respostas e de reconciliação. Por isso, é essencial que os governos envolvidos assumam responsabilidades claras e criem mecanismos eficazes para reparar os danos. Tal como destaca a Swissinfo.ch, a luta das vítimas é um lembrete de que a verdade, a justiça e a dignidade humana devem prevalecer sobre a negligência e a indiferença institucional.


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