Escrevo como cidadão do mundo, como intelectual, como escritor, como crítico social e como alguém que assume a responsabilidade da palavra pública.
Li um artigo onde Donald Trump fala abertamente de oportunidades de negócio na Venezuela, referindo a entrada das grandes companhias petrolíferas, investimentos de milhares de milhões de dólares, a reparação de infra-estruturas e o regresso do dinheiro ao país. Dito assim, parece progresso. Lido com seriedade, revela intenção.
É impensável aceitar a queda de uma ditadura se o verdadeiro motivo for o petróleo. A libertação de um povo não pode servir de pretexto para novos interesses económicos tomarem o lugar da opressão antiga.
A saída de Nicolás Maduro, ou de qualquer outro ditador, só é digna de aplauso quando devolve liberdade real ao povo, nunca quando abre caminho a uma nova forma de domínio.
Os venezuelanos, que resistiram anos ao medo, à fome e ao silêncio imposto, merecem mais do que uma mudança de discurso. Merecem soberania, dignidade e futuro. E merecem-no também os emigrantes, espalhados pelo mundo, em particular os portugueses que ali viveram, trabalharam, criaram raízes e viram o seu esforço ser engolido por um regime que destruiu um país inteiro.
Esses emigrantes sabem bem o que é perder tudo sem direito a palavra, voto ou protecção.
Não aos ditadores, porque governam pela miséria e pela repressão. Não aos oportunistas, porque usam a linguagem da ajuda para esconder a ganância. Não a quem usa o poder para enriquecer enquanto empurra o seu povo para a pobreza, porque isso não é solução, é crueldade. É maldade consciente.
A Estados Unidos da América, como qualquer outra potência, perde toda a autoridade moral no momento em que a democracia passa a valer por barril. Um país não se reconstrói vendendo os seus recursos sem antes devolver voz, voto e liberdade a quem lá vive.
A Venezuela deve ser um país livre, democrático e soberano, não uma peça num tabuleiro geopolítico. E o mesmo se aplica a todos os países onde ainda se vive sem direito à expressão, ao voto e à verdade. A história ensina-nos que mudar de opressor não é libertação, é adiamento do sofrimento.
Dizê-lo com clareza é um dever como cidadão. Não à ditadura, seja ela bruta ou disfarçada. Não ao oportunismo mascarado de ajuda. Sim à dignidade humana, sim à liberdade dos povos, sim a um futuro que não se constrói sobre a miséria alheia.
autor: João Carlos Quelhas
Revista Repórter X Editora Schweiz


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