Tornar-se proprietário na Suíça: O sonho que exige um salário de 12.500 francos por mês”. Na Suíça, adquirir uma casa continua a ser um privilégio reservado a poucos, fortemente condicionado pelo rendimento e pelo nível de formação.
De acordo com um estudo recente encomendado pela plataforma comparis.ch, a realidade mostra que 57% dos suíços vivem em casas arrendadas, o que revela a dificuldade de acesso à propriedade.
A sondagem, realizada em agosto junto de 1.016 adultos de todas as regiões do país, expôs um panorama detalhado das condições habitacionais dos cidadãos suíços.
Entre os jovens dos 18 aos 35 anos, a proporção de arrendatários é ainda mais elevada — atinge os 68%, refletindo um mercado imobiliário cada vez mais inacessível para as novas gerações.
Nas zonas urbanas, onde a procura é mais intensa, o preço da habitação sobe drasticamente.
Comprar um imóvel implica, na maioria dos casos, contrair uma hipoteca de cerca de 1 milhão de francos suíços, o que exige um rendimento mensal mínimo de 12.500 francos.
Como sublinha Harry Büsser, especialista imobiliário da Comparis, “mesmo quem ganha bem enfrenta enormes obstáculos para comprar casa, sobretudo nas cidades”.
Em suma, quem vive em áreas urbanas precisa de rendimentos elevados para aspirar à propriedade — e isso torna o sonho de “ter casa própria” cada vez mais distante para a maioria.
Educação, rendimento e espaço: uma ligação direta
A pesquisa revelou também uma relação clara entre o nível de escolaridade e as condições de habitação.
Pessoas com formação superior tendem a viver em casas maiores e têm maior probabilidade de serem proprietárias.
Isto acontece porque, ao longo do tempo, a educação influencia diretamente o rendimento familiar, criando uma diferença estrutural entre grupos sociais.
Segundo Büsser, “é evidente que o nível de formação e a situação habitacional caminham lado a lado”.
E de facto, os dados confirmam: entre os indivíduos com mais qualificações, 39% vivem em casal com filhos, ao passo que entre os menos qualificados apenas 26% têm essa configuração familiar.
Além disso, as famílias monoparentais são mais comuns entre os menos instruídos — 7,4% contra 4,5% entre os mais qualificados.
Assim, pode afirmar-se que quanto maior a formação, maior o espaço e a estabilidade residencial.
Este padrão evidencia que a desigualdade económica na Suíça reflete-se claramente no tipo de habitação e no acesso à propriedade.
O desaparecimento dos velhos sótãos suíços
Outro dado curioso do estudo refere-se às mudanças na estrutura dos edifícios suíços.
Atualmente, 92% dos habitantes têm uma cave, mas apenas 41% dispõem de sótão.
Essa diferença explica-se pelo desaparecimento gradual dos tradicionais greniers (sótãos), agora transformados em luxuosos apartamentos.
Os promotores imobiliários preferem converter esses espaços em penthouses de alto valor, maximizando o lucro por metro quadrado.
Como explica o especialista, “as caves não contam como área habitável, mas os sótãos podem ser vendidos como apartamentos de luxo”.
Assim, onde antes se guardavam malas antigas, agora encontram-se terraços panorâmicos com vista para os Alpes ou para o lago.
Este fenómeno mostra uma clara tendência de otimização do espaço urbano para fins comerciais, sacrificando o caráter tradicional das habitações suíças.
Por outras palavras, a rentabilidade fala mais alto que a nostalgia.
O padrão habitacional helvético atual
O apartamento de quatro a quatro e meia divisões tornou-se o formato padrão na Suíça, abrigando cerca de um terço da população inquirida.
Em termos de área, 40% dos suíços vivem em casas entre 71 e 110 metros quadrados, o que revela um equilíbrio entre necessidades familiares e limitações financeiras.
Esta distribuição reflete as contradições do mercado imobiliário suíço moderno:
por um lado, há procura por conforto e espaço; por outro, os preços elevados obrigam a compromissos.
Dessa forma, o cidadão médio tenta equilibrar o desejo de estabilidade com a realidade económica, num mercado onde a compra de casa é um luxo reservado a quem tem altos rendimentos.
Conclusão: um sonho adiado para muitos suíços
Em síntese, o estudo confirma que a propriedade na Suíça continua fora do alcance da maioria, sobretudo nas cidades.
A necessidade de um salário mínimo de 12.500 francos mensais para comprar casa deixa evidente a dimensão do desafio.
Além disso, a ligação entre formação académica e acesso à propriedade demonstra que a desigualdade começa muito antes da compra da primeira casa.
Enquanto isso, os promotores imobiliários transformam cada metro quadrado em oportunidade de investimento, reduzindo os espaços tradicionais e aumentando o valor dos imóveis.
Portanto, o sonho suíço de ter uma casa própria — símbolo de segurança e independência — torna-se cada vez mais difícil de concretizar.
E no futuro próximo, pode bem permanecer um privilégio reservado a quem ganha muito acima da média nacional.
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