A Suíça é apresentada ao mundo como exemplo. Ruas limpas, comboios pontuais, salários elevados, paisagens que parecem saídas de um postal antigo. Fala-se da qualidade de vida como se fosse direito adquirido, como se estivesse garantida por decreto.
Mas a verdade é mais dura.
A qualidade de vida existe, sim, mas tem condição. É para quem tem saúde e tem emprego. É para quem consegue manter-se produtivo num sistema que valoriza o rendimento acima de quase tudo. Quando o corpo falha, quando o contrato termina, quando a idade pesa, a realidade muda de rosto.
Quem perde o emprego sente o chão fugir. O apoio existe, mas é burocrático, exigente, controlado ao detalhe. A pressão psicológica não é pequena. Quem adoece enfrenta seguros, relatórios, perícias, decisões administrativas que nem sempre protegem o mais fraco. E quem chega à reforma descobre que a autonomia não é garantida apenas com uma pensão.
Os próprios suíços, depois de uma vida inteira de trabalho, muitas vezes vivem com reformas que mal cobrem renda, seguro de saúde e despesas básicas. Fala-se do sistema dos três pilares como modelo de estabilidade, mas omite-se que nem todos conseguiram acumular o suficiente no segundo e terceiro pilar. Sem esses complementos, a pensão do primeiro pilar raramente basta para viver com independência.
É aqui que surge o outro lado da moeda. O lado que não aparece nas brochuras oficiais nem nos relatórios promocionais. O lado de quem conta cada franco ao fim do mês, de quem adia consultas médicas por causa das franquias elevadas, de quem teme envelhecer sozinho num apartamento demasiado caro.
A Suíça recompensa quem produz, mas é severa com quem fraqueja. Não há sentimentalismos. O sistema é eficiente, mas frio. Funciona bem enquanto se encaixa nas engrenagens. Fora delas, a protecção torna-se estreita.
Isto não invalida os méritos do país. Há ordem, há segurança, há oportunidades reais para quem trabalha. Mas não se pode pintar apenas a metade luminosa do quadro. A dignidade de uma nação mede-se também por como trata os que já deram tudo, os que adoeceram, os que ficaram para trás.
Falar da Suíça exige coragem para olhar o todo. A carne é suculenta para muitos. Os ossos, esses, ficam para quem já não consegue mastigar o sistema.
E é precisamente aí que se decide o futuro. Um país forte não é apenas aquele que gera riqueza, é aquele que não abandona os seus quando a força lhes falta. A prosperidade verdadeira não pode depender apenas da saúde e do emprego. Tem de assentar numa base mais humana, mais justa, mais duradoura.
Porque uma sociedade que só celebra os vencedores corre o risco de esquecer que todos, um dia, envelhecem. E nesse dia, não bastam estatísticas bonitas, é preciso amparo real, respeito concreto, justiça viva.
autor Quelhas
Revista Repórter X Editora Schweiz
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