Safra Justa abala justiça portuguesa

Safra Justa abala justiça portuguesa maioria dos arguidos sai em liberdade
Safra Justa abala justiça portuguesa maioria dos arguidos sai em liberdade

Tribunal invalida escutas no processo

Safra Justa abala justiça portuguesa. A operação Safra Justa, que expôs uma alegada rede criminosa de apoio à imigração ilegal, sofreu um abalo significativo depois de o Tribunal de Instrução invalidar uma parte substancial das escutas usadas pelo Ministério Público. Assim, e embora o caso envolvesse crimes graves, como tráfico de pessoas, corrupção e abuso de poder, apenas três arguidos ficaram em prisão preventiva.

Desde o início, o tribunal frisou que grande parte das escutas não tinha sido transcrita, o que, portanto, impedia a sua valorização. Esta decisão acabou por alterar profundamente o rumo das medidas de coação.


Escutas condicionam medidas aplicadas

Consequentemente, o Tribunal Judicial da Comarca de Lisboa apenas determinou prisão preventiva para três civis. Já o militar da GNR, o agente da PSP e dois outros civis ficaram apenas sujeitos a termo de identidade e residência.

Além disso, dos 17 detidos inicialmente, dez — nove deles militares da GNR — tinham já sido libertados na quinta-feira, antes de as restantes detenções serem apreciadas no sábado.

O próprio tribunal explicou, de forma direta, que cerca de 89 artigos da acusação se baseavam total ou parcialmente em escutas não transcritas. O tribunal sublinhou que esses elementos não podiam ser considerados, alterando de forma decisiva o cenário acusatório.


Forças de segurança praticamente afastadas

Entre os factos mais relevantes, destacou-se que a maioria das imputações feitas aos elementos da GNR e da PSP dependia exclusivamente dessas escutas invalidadas. Assim, o tribunal passou a considerar inexistentes os indícios necessários para a manutenção de medidas de coação mais gravosas.

Deste modo, os agentes das forças de autoridade vão aguardar julgamento apenas com TIR, enquanto os três civis libertados ficam obrigados a apresentações periódicas e proibidos de contactar vítimas ou coarguidos. Também não podem sair do país.


Organização controlava centenas de trabalhadores

A operação Safra Justa, desencadeada pela Polícia Judiciária na terça-feira, desmantelou uma estrutura que, segundo a investigação, controlava cerca de 500 trabalhadores estrangeiros no Alentejo. Importa referir, contudo, que nem todos estes trabalhadores são considerados vítimas de tráfico.

A Inspeção-Geral da Administração Interna já propôs à ministra a abertura de processos disciplinares aos 10 militares da GNR e ao agente da PSP envolvidos.

Além disso, a PJ tinha anunciado que a rede explorava imigrantes em situação irregular, praticando crimes como auxílio à imigração ilegal, tráfico de pessoas, corrupção, falsificação, fraude fiscal e branqueamento de capitais.


Estrutura hierarquizada e lucros elevados

Segundo fontes policiais, os 10 militares da GNR pertenciam ao Comando Territorial de Beja, enquanto o agente da PSP estava de baixa desde 2024.

Dos seis civis, quatro são portugueses e dois estrangeiros oriundos do sul da Ásia. Estes últimos recrutavam trabalhadores vulneráveis, que acabavam coagidos ou ameaçados. Entre os portugueses, as autoridades identificaram um como alegado líder da rede e qualificaram os restantes como executores diretos.

O Ministério Público sustentou que o grupo aproveitava a vulnerabilidade social e documental das vítimas. Por isso, estas aceitavam trabalhar sem contrato e recebiam salários inferiores aos praticados no setor agrícola.

Além disso, os responsáveis impunham às vítimas custos arbitrários de alojamento, transporte, eletricidade, água e documentação. Os elementos das forças de segurança, por sua vez, vigiavam os trabalhadores e mantinham o controlo do grupo mediante compensações monetárias. Além disso, os suspeitos desencorajavam as vítimas a procurar ajuda das autoridades.

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