Resposta ao silêncio institucional e à recusa de actuação dos nossos governantes: carta ao Deputado Carlos Gonçalves:
Exmo. Senhor Deputado Carlos Gonçalves,
Dirijo-me apenas a si porque foi o único que respondeu. Todos os outros receberam exactamente o mesmo email, todos sabem, todos têm conhecimento pleno da situação, e nada fazem. O seu silêncio colectivo é um facto político, não é um acaso, nem um lapso administrativo.
A sua resposta, que recebi em conjunto com os restantes destinatários, confirma aquilo que já era evidente. Há consciência do problema, há conhecimento dos limites, há enumeração de impossibilidades, e no entanto não há acção. Saber e nada fazer é também uma forma de decisão.
O Senhor Embaixador respondeu, é verdade, mas respondeu para se demitir. Limitou-se a afirmar que não pode actuar, quando todos sabemos que pode, se quiser. A diplomacia não se esgota na letra fria da lei. Existe influência política, existe mediação institucional, existe capacidade de pressão formal e informal. Sempre existiu. Negá-la é escolher a inércia.
O Senhor Cônsul permanece em silêncio. Um silêncio pesado, que diz tudo sem dizer nada. Quando o cidadão escreve e a instituição cala, não há neutralidade, há abandono.
O Senhor Deputado sabe isto. Sabe que o emigrante é lembrado em tempo de eleições e esquecido quando pede justiça. Sabe que um mandato não é um cargo decorativo, é uma responsabilidade activa. Não lhe peço actos ilegais, peço coragem. Não lhe peço favores, peço responsabilidade. Não lhe peço discursos, peço intervenção.
A democracia não vive apenas de leis, vive de consciência. Mede-se pela forma como trata quem está longe, quem não tem palco, quem não tem poder. Neste caso, Portugal sabe e escolhe não agir.
Ainda assim escrevo-lhe, porque responder já é um gesto raro. Escrevo-lhe para que o silêncio dos outros não seja também o seu. Escrevo-lhe porque o futuro não se constrói com desculpas, constrói-se com actos, mesmo quando incomodam.
Com os melhores cumprimentos, sem resignação,
Domicio Gomes
Artigo escrito por: João Carlos Veloso Gonçalves, ‘Quelhas’ Revista Repórter X


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