RAV, quando a regra empurra para o silêncio. Num restaurante discreto em Glarus, ao fim da tarde, juntaram-se várias pessoas à mesma mesa, não para combinar nada, mas para dizer em voz baixa aquilo que o sistema empurra para dentro. São trabalhadores desempregados e trabalhadores temporários, intermitentes, trabalhadores que conhecem a regra e o aperto.
O Müller começa pelo princípio, quem trabalha de forma temporária tem de se inscrever na RAV para receber quando fica em casa, se não estiver inscrito não ganha nada, mesmo tendo trabalhado meses seguidos e descontado, a inscrição não é escolha, é condição de sobrevivência, e ainda assim a mesma inscrição transforma o descanso forçado em suspeita.
O Jerson acrescenta que o sistema exige procura permanente de empregos, mesmo em sectores pequenos, com poucas portas, onde hoje não há trabalho e amanhã pode haver, repetir contactos faz sentido económico, mas já deu penalização, porque a lógica administrativa da RAV não aceita a lógica real do mercado.
A Mary fala da pressão para mudar de sector de emprego e até de área local, aceitar qualquer coisa, ganhar menos, trabalhar mais, apenas para não ficar em casa, é maldade do sistema na Suíça que se está a lixar para o trabalhador. Acrescenta que aceitar um novo posto, mesmo a ganhar mais, não garante que seja bom, pode ser mais longe, mais mal pago, com ambientes difíceis, colegas problemáticos, horários que destroem a vida, ser feliz no trabalho também conta, mesmo que não caiba nos formulários e por isso se estamos bem num trabalho temporário não temos de mudar. A obrigação da RAV é pagar o tempo que ficamos em casa, pois descontamos para o Fundo-Desemprego…
A Heidi lembra as deslocações, trocar quinze minutos por uma hora de viagem, tempo de vida por estrada, em nome de uma mobilidade abstracta, pergunta quem paga esse tempo roubado, quem repara o cansaço acumulado.
O Peter põe o dedo na ferida, diz que quando a regra empurra para fora do que a pessoa sabe fazer profissionalmente, nascem comportamentos defensivos, silêncios, omissões, papéis que cumprem o ritual enquanto a pessoa tenta preservar o que ainda funciona, não se diz que é certo, descreve-se o que acontece quando a norma ignora o humano.
O Hans deixa cair a frase que resume tudo, “sou dono do meu umbigo”, ninguém tem de mudar só porque sim, ninguém deve ser deslocado como peça, a escolha de um trabalho não é só salário, é pertença, é com quem se trabalha, é saúde mental, e ganhar mais não garante felicidade quando se perde tudo o resto.
A Greta observa que o sistema discorda sempre de quem tenta ficar onde está bem, prefere a rotação constante, porque a instabilidade alimenta a engrenagem, chama-lhe activação, mas é desgaste organizado.
A Fritz vai mais longe e diz que estas artimanhas de sobrevivência não nascem da malícia, nascem da aprendizagem forçada, aprende-se com a máfia elegante que se espalhou a todos os sectores na Suíça, cumprir no papel para não cair no vazio, enquanto se tenta não destruir a própria vida, o problema não são as pessoas, é o mecanismo.
O Fredi, o mais velho, fecha com calma antiga, diz que ninguém ali pede privilégios, pede coerência, quem trabalha nove ou dez meses no ano não devia ser tratado como oportunista quando pára, não tem de aceitar ganhar menos e trabalhar mais, não tem de mudar de área, nem de deslocar-se horas sem compensação, mudar só faz sentido se for para melhor, fixo, digno, com condições claras.
Pagam a conta em silêncio. Não houve instruções, nem apelos, houve descrição. O contexto inteiro ficou à mesa, a intermitência, a obrigação de inscrição, a pressão para mudar, a felicidade ignorada, os comportamentos defensivos que o sistema gera, e a certeza comum de que quando um modelo empurra pessoas honestas para contornar para sobreviver, a falha não está nelas. E assim se levanta a notícia, não de um caso, mas de um padrão, dito por muitos, em nomes que podiam ser outros, porque a história é colectiva, e enquanto for contada com prudência, haverá futuro.
autor: Quelhas


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