RAV – A obrigação do absurdo, quando o desemprego se transforma em ficção

RAV – A obrigação do absurdo, quando o desemprego se transforma em ficção. A RAV, ligada ao fundo de desemprego, obriga o desempregado a procurar trabalho online. Não como possibilidade, não como apoio, mas como imposição administrativa. Quem não cumpre é penalizado no subsídio, como se a falha fosse moral e não consequência directa de um sistema viciado.

E o que são, afinal, esses trabalhos online que somos forçados a procurar? 

São exactamente aqueles que aparecem nos e-mails documentados no qual o desempregado se registrou para arranjar trabalho como o sistema dita, alertas automáticos, listas intermináveis, cargos misturados sem lógica, páginas vazias, contactos inexistentes ou incompletos. Marketing publicitário travestido de emprego. Ruído apresentado como oportunidade. Quantidade a fingir realidade.

O sistema obriga a enviar candidaturas, por ccorreio electrónico, por carta, por telefonema, sabendo-se à partida que algo falhará sempre. Ora não há endereço, ora não há e-mail, ora não há número de telefone. E quando existe contacto, a resposta é quase sempre a recusa, automática, fria, ou educadamente indiferente. O gesto é exigido, o resultado é irrelevante.

A exigência atinge o grotesco quando até para limpar chão, lixo ou sanitários se pede alemão a 100%100% de língua, 100% de disponibilidade, 100% de submissão. Mas nunca se fala em 100% de salário obrigatório. Nunca se fala em 100% de contracto estável. Nunca se fala em 100% de dignidade.

A maioria esmagadora destas ofertas não é trabalho fixo. São contratos temporários, semanas soltas, meses contados, horários fragmentados. E o valor repete-se como um tecto baixo imposto à sobrevivência, 17,50 francos por hora. Quem vem de fora da Europa até recebe menos! Exploração normalizada, aceite como regra. Um salário que não acompanha o custo de vida, apresentado como favor.

Quem tem estudos, quem domina a língua, quem tem profissão, não atravessou anos de formação para acabar aprisionado nesta encenação. Quem fala alemão a 100%, no cantão de Zurique, não precisa de provar valor em tarefas para as quais o sistema exige tudo e oferece quase nada em troca. Não se trata de desprezar trabalho honesto, trata-se de recusar a humilhação organizada.

Há pessoas a trabalhar em gráficas, outras são professores, arquitectos, operários, trabalhadores do campo, da restauração, da construção. Ainda assim, são obrigadas a enviar currículos para funções completamente alheias, apenas para não repetir candidaturas, porque o sistema exige números, não sentido. São sempre as mesmas plataformas, os mesmos agregadores, a mesma teia digital onde todos se inscrevem e de onde saem apenas respostas automáticas.

Não se trata de procurar trabalho, trata-se de fingir que se procura. Alimentam-se relatórios, estatísticas e a narrativa cómoda de que o mercado funciona. O desempregado torna-se figurante de um teatro administrativo, onde a culpa é sempre individual e nunca estrutural.

A RAV – fundo de desemprego vêem esta realidade, mas escolhem não a enfrentar. O sistema convive com esta lógica, colabora com ela por omissão e legitima-a na prática. Enquanto houver listas e alertas, pode dizer-se que há trabalho. Enquanto houver cliques e envios, pode punir-se quem não é colocado.

O trabalho honesto existe, livre, por vezes mal pago, mas digno. E ninguém recusa trabalho por preguiça. Recusa-se a mentira. Recusa-se a encenação. Recusa-se um sistema que obriga a tapar os olhos e a enviar candidaturas para o vazio sob ameaça de corte no sustento.

Este texto não é um desabafo. É um registo. Uma denúncia clara de um mecanismo que confunde obrigação com justiça e actividade com verdade. Enquanto o desemprego for tratado como culpa individual e a exploração como normalidade, haverá alertas, percentagens e palavras bonitas, mas cada vez menos humanidade.

Dizer isto como é, sem enfeites, é um dever. Porque o futuro não se constrói com contractos temporários mascarados de solução nem com salários baixos apresentados como virtude. Constrói-se com trabalho real, respeito e verdade.

autor: Quelhas

Seja o primeiro a comentar

Deixe seu comentário