Politiqueiros portugueses dizem ser suíços: Caro Carlos Medeiros. Escrevo-lhe de forma directa. Falo do que vivi, do que sofri e do que continuo a sofrer num sistema que funciona bem para si próprio e mal para quem cai, adoece ou denuncia. Depois fala de barriga cheia.
Ninguém acusa o povo suíço individual, seria injusto e falso. Acusamos as colectividades do Estado, a lei usada como escudo, as instituições que se protegem mutuamente, as seguradoras, os serviços e os mecanismos que apagam pessoas em nome da ordem. É neste contexto que muita gente considera que o sistema suíço herdou de Hitler a frieza da nação nos cargos políticos, sociais e afins. Um sistema que se está a tornar corrupto, e que Portugal está a copiar.
Repare, a retirada de crianças pela KESB acontece também através do Instituto da Segurança Social. Olhe para o que a SUVA fez comigo e com centenas de portugueses que, depois de termos descontado, não nos dão os direitos merecidos, e em que médicos e seguradoras mentem nos relatórios para não assumirem responsabilidades. Olhe para o imposto duplo sobre valores e bens arrecadados. Olhe para o RNH. Olhe para os descontos que desaparecem a quem trabalha em várias firmas. Olhe para a pensão de invalidez, que não dá para viver depois de termos descontado como manda a Lei. Olhe para os impostos pagos cá e, depois, na pensão de invalidez e na reforma, ainda termos de pagar em Portugal mais vinte e três por cento.
O que faz na Suíça como político, o que pode ajudar mediante forças políticas portuguesas em conjunto. Ou prefere defender a Suíça, quando a mesma não é apenas aquilo que pintam e, em regra geral, a parte social e os problemas que passamos a ter são esquecidos, sendo tratados como portugueses de segunda e emigrantes de segunda pelos políticos.
A Suíça que defende com tanto ardor é a mesma que me negou exames, que adulterou relatórios, que fechou portas e que me empurrou para o silêncio. Mas eu nunca me calarei. E perante isso, o que ouvi da sua parte nos comentários da Repórter X não foi acção nem defesa concreta, foi discurso, comparação e desconforto com a crítica.
Quando um político se sente mais ferido pela imagem de um país do que pela situação real de portugueses que nele vivem e sofrem, algo está profundamente errado. A política não é palco, não é orgulho identitário, é responsabilidade. O senhor, como português, deveria ter obrigação de conhecer os problemas e a realidade de muitos portugueses e, como diz ser suíço, percebe-se quando vendeu a sua alma.
Não lhe peço ataques à Suíça, peço-lhe coragem para enfrentar o sistema quando este falha, para defender portugueses quando estes são tratados como incómodo, para escolher pessoas antes de instituições.
O nosso homólogo João Carlos Quelhas denunciou padrões, eu trouxe o corpo ferido e os factos, Carlos Medeiros respondeu a proteger a ideia do país de acolhimento. É aqui que nos separamos.
A política mede-se no terreno, não em entrevistas nem em cargos. Mede-se ao lado de quem caiu e ficou para trás. É isso que lhe digo, sem insulto e sem rodeios, porque a verdade não precisa de defesa.
Domício Gomes
Revista Repórter X Editora Schweiz


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