Os ingredientes do ano inteiro que ganham voz no Natal. Não são ingredientes de estação, são ingredientes de permanência. Vivem na cozinha entre Janeiro e Dezembro, mas é no Natal e Ano Novo que ganham outra gravidade, outro silêncio, outra nobreza. O que muda não é o que se usa, é o tempo que se dá e o respeito com que se faz.
No Bacalhau à Braga, afirmam-se o Azeite, o Alho, a Cebola, o Louro, a Salsa, a Pimenta, o Sal e, conforme a casa, o Vinagre.
No Cabrito à São José, entram o Alho, o Louro, o Colorau, o Azeite, o Sal, a Pimenta, o Vinho Branco e, em muitas mesas, um raminho de Alecrim, ligados pelo forno e pela paciência antiga.
No Bife de Porto D’Ave, manda a simplicidade firme, Alho, Azeite, Pimenta, Sal e, quando a mão sabe, uma folha de Louro.
A Feijoada da Rosa, feita em qualquer mês do ano, no Natal ganha outra densidade, com Alho, Cebola, Louro, Azeite, Colorau, Cominhos, Pimenta e Sal, às vezes com um toque de Noz-moscada, discreto, antigo.
No Polvo do Dionísio, o Azeite é lei, o Alho acompanha, a Cebola adoça, o Sal sustém.
Nos Formigos da Ângela, entram Pão, Mel, Azeite, Canela, Açúcar e uma pitada de Sal, porque até o doce exige juízo.
Na fritura do Abacaxi do Leonel, regressam Farinha, Ovos, Óleo ou Azeite, Açúcar, Canela, Sal e, conforme a mão, um sopro de Gengibre ou Erva-doce.
No assado do Carlos, voltam os pilares, Alho, Louro, Azeite, Sal, Pimenta, Colorau, Vinho e, não raras vezes, Funcho.
E há o Bolo-rei da Bárbara, que não é invenção nem moda, é herança. Leva Farinha, Açúcar, Ovos, Leite, Manteiga ou Azeite, Fermento, Sal, Canela, Vinho, Mel, Frutos secos e Fruta cristalizada, e leva sobretudo tempo e mão certa. Não é bolo de todos os dias, mas é feito com ingredientes de todo o ano, elevados pelo Natal.
Durante o ano, estes ingredientes alimentam o corpo e o trabalho. No Natal, alimentam a memória e seguram a mesa. O mesmo Alho, o mesmo Sal, o mesmo Azeite, mas usados com consciência e solenidade.
O ano ensina a repetir. O Natal ensina a reconhecer. Reconhecer que é com Azeite, Alho, Cebola, Sal, Açúcar, Louro, Pimenta, Canela, Colorau, Cominhos, Salsa, Alecrim, Funcho, Erva-doce, Noz-moscada, Gengibre, Mel, Farinha, Ovos, Vinho, Vinagre, Óleo, Pão, Leite e Frutos secos que se constrói a cozinha e se mantém o fio do tempo. Assim foi, assim é, e assim deve continuar.
Nota de rodapé, ingredientes e origem;
Azeite, fruto da oliveira, mediterrâneo.
Alho, bolbo da terra, origem asiática antiga.
Cebola, bolbo, Ásia ocidental e central.
Louro, folha do loureiro, mediterrâneo.
Salsa, folha herbácea, mediterrâneo.
Alecrim, arbusto aromático, mediterrâneo.
Pimenta, fruto seco da pimenteira, Índia e sudeste asiático.
Cominhos, semente, médio oriente e Ásia ocidental.
Colorau, pimentão seco moído, Américas.
Pimento, fruto fresco do pimenteiro, Américas.
Canela, casca da caneleira, sul da Ásia.
Erva-doce, semente e folha, mediterrâneo oriental.
Funcho, folha e semente, mediterrâneo.
Noz-moscada, semente, Indonésia.
Gengibre, rizoma, sul da Ásia.
Sal, mineral, mar ou minas.
Açúcar, cana ou beterraba.
Mel, produto das abelhas.
Vinagre, fermentação acética.
Vinho e Vinho Branco, fermentação da uva.
Farinha, cereal moído, sobretudo trigo.
Ovos, aves domésticas.
Óleo, gorduras vegetais de sementes ou frutos.
Pão, farinha, água e fermentação.
Leite, origem animal.
Frutos secos, árvores diversas, amendoeira, nogueira, pinheiro.
Abacaxi, fruto tropical, América do Sul.
autor: Quelhas


Seja o primeiro a comentar