Onde estão dois milhões de portugueses? Um retrato da emigração portuguesa contemporânea. A emigração portuguesa é um fenómeno que acompanha o país há décadas, sendo frequentemente alvo de interpretações simplistas. No entanto, quando analisamos os dados com rigor, conseguimos compreender melhor quem emigra, para onde vai e porquê, bem como os impactos económicos e demográficos dessa mobilidade. Este artigo explora detalhadamente a emigração portuguesa, oferecendo um panorama factual e atualizado.
Definição e contexto histórico da emigração portuguesa
O Observatório da Emigração define o termo “emigrante” como um indivíduo que deixa Portugal para residir em outro país por pelo menos doze meses. Por conseguinte, é essencial distinguir entre fluxos anuais de saída e o stock total de emigrantes, para evitar interpretações erradas. Historicamente, até aos anos 60, os destinos mais frequentes incluíam Angola, Moçambique, Estados Unidos e Canadá. No entanto, a partir da década de 60 até 1974, os destinos europeus, particularmente França e Alemanha, tornaram-se mais populares devido às oportunidades económicas e sociais que ofereciam.
Atualmente, segundo as Nações Unidas, existem cerca de 2,1 milhões de emigrantes portugueses, ou seja, cidadãos nascidos em Portugal que residem fora, excluindo os filhos nascidos no estrangeiro. Entre 2001 e 2020, a média anual de emigrantes foi de 75 mil, resultando em mais de um milhão e meio de saídas acumuladas, embora mais de um terço destas saídas tenham sido compensadas por retornos ao país.
Para onde vão os emigrantes portugueses?
Ao analisarmos o stock de emigrantes, França lidera como destino, com cerca de 600 mil portugueses em 2021, seguida da Suíça, Reino Unido, Estados Unidos e Canadá. No entanto, se considerarmos os fluxos recentes (2014-2019), a emigração mais recente é predominantemente europeia, com o Reino Unido como destino preferido, seguido da Suíça, França, Alemanha e Espanha. Esta mudança reflete a facilidade de mobilidade dentro da União Europeia, embora o Brexit tenha reduzido a atratividade do Reino Unido.
Além disso, os países escolhidos apresentam rendimentos medianos mais elevados do que Portugal, o que incentiva a emigração. Dados do projeto BRADRAMO revelam que emigrantes com ensino superior, antes da saída, recebiam, em mais de 70% dos casos, menos de 1.000 euros, enquanto após a emigração, mais de 50% auferem acima de 2.000 euros e 26,5% recebem mais de 3.000 euros. Assim, a melhoria económica constitui um fator decisivo.
Quem são os portugueses que emigram?
A propensão para emigrar varia significativamente com a idade e geração. Por exemplo, 48% da geração Z manifesta intenção de emigrar, contra apenas 12,5% da geração X. Em 2021, 70% das saídas envolveram cidadãos entre 15 e 39 anos, confirmando que os emigrantes são, predominantemente, jovens.
Quanto ao nível de qualificações, a emigração histórica é pouco qualificada, com apenas 13% dos emigrantes possuindo ensino superior em 2016. Contudo, entre as saídas mais recentes, o nível de qualificações aumentou substancialmente: 48% dos emigrantes de 2021 tinham ensino superior, muito acima da média nacional de 22%. Além disso, o perfil de qualificação varia conforme o destino, sendo o Reino Unido particularmente atraente para profissionais qualificados, como enfermeiros e engenheiros.
Relativamente aos campos de especialização, os emigrantes concentram-se em ciência, informática e matemática, ciências sociais, comércio e direito, bem como engenharia, indústrias transformadoras e construção. As mulheres encontram-se ligeiramente sobrerepresentadas entre os emigrantes qualificados, refletindo a maior presença feminina no ensino superior.
Motivos de Emigração: Económicos e Profissionais
As razões que levam os portugueses a emigrar são variadas, mas predominam motivos profissionais e económicos. Entre os emigrantes qualificados, 95% consideram insatisfação com a carreira como fator importante, enquanto 80% valorizam a procura de salários mais elevados. Entre os menos qualificados, 40% sentem que não têm futuro em Portugal e 23% consideram o salário insuficiente.
Adicionalmente, a busca por novas experiências e independência social influencia a decisão. Programas de mobilidade estudantil, como Erasmus, aumentam a probabilidade de emigração, especialmente entre os jovens com ensino superior, que procuram estabilidade, habitação própria e progresso profissional.
Consequências económicas e demográficas da emigração
A emigração tem efeitos positivos e negativos. Por um lado, os emigrantes enviam remessas para Portugal, correspondendo, em média, a 1,8% do PIB anual, aumentando o poder de compra das famílias. Por outro lado, existem custos significativos para o Estado, incluindo perdas de contribuições para a Segurança Social (4,7 mil milhões de euros/ano) e IRS (2,3 mil milhões de euros/ano), além do custo de substituição da educação de emigrantes qualificados (18,7 mil milhões de euros na última década).
No mercado de trabalho, a saída de jovens qualificados reduz o número de profissionais disponíveis para carreiras compatíveis com a sua formação, embora Portugal beneficie da imigração de profissionais qualificados, equilibrando parcialmente este efeito.
Em termos demográficos, cerca de um terço dos portugueses entre 15 e 39 anos vive fora do país, diminuindo o número de casais em idade de ter filhos. Em 2021, 20% dos filhos de mães portuguesas nasceram fora de Portugal, mas a imigração recente ajuda a contrabalançar parcialmente este efeito.
Políticas públicas e incentivos ao regresso
Para mitigar os impactos da emigração, diversos governos implementaram políticas de incentivo ao regresso e atração de talento. Entre elas, destaca-se o Programa Regressar, que oferece benefícios fiscais, incluindo isenção parcial de IRS para emigrantes que regressam após cinco anos fora. Entre 2019 e 2022, este programa beneficiou 4.365 emigrantes.
Outras iniciativas recentes incluem o regime fiscal dos residentes não habituais e o programa IFICI+, destinados a atrair talento estrangeiro e nacional qualificado, bem como o conjunto de 14 medidas para a juventude no âmbito do programa “Tens Futuro em Portugal”. Embora a eficácia das medidas mais recentes ainda precise de ser avaliada, estas políticas refletem o reconhecimento do impacto económico e demográfico da emigração.
Conclusão: Um Fenómeno Multidimensional
Em síntese, os dois milhões de emigrantes portugueses espalhados pelo mundo constituem um grupo heterogéneo e crescente. Os emigrantes recentes saem à procura de melhorias salariais, satisfação profissional e novas experiências, sobretudo em países europeus com rendimentos superiores. A população emigrante é jovem e cada vez mais qualificada, refletindo tendências globais de mobilidade laboral.
Apesar das remessas e benefícios financeiros gerados, a emigração apresenta desafios significativos para a economia, mercado de trabalho e demografia portuguesa. As políticas públicas recentes tentam incentivar o regresso e atrair talento, mas o impacto destas iniciativas só se revelará ao longo do tempo.
Afinal, onde estão os dois milhões de portugueses? Estão espalhados pelo mundo, mas continuam a influenciar diretamente a economia, a sociedade e o futuro de Portugal, lembrando-nos da importância de compreender e gerir cuidadosamente este fenómeno complexo. Fonte: https://eco.sapo.pt/


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