O desporto na Suíça, memória, hierarquia e verdade

O desporto na Suíça, memória, hierarquia e verdade. Durante décadas, o desporto na Suíça construiu-se longe do ruído e da propaganda. Cresceu no frio, na escola, na associação local, no campo improvisado e, sobretudo, na montanha. Antes das modas mediáticas e dos rankings televisivos, havia prática, havia hábito e havia identidade. É a partir daí que importa olhar para o passado e para o presente, sem distorções convenientes.

Nos anos noventa, importa afirmá-lo com clareza, o desporto-rei na Suíça era o Râguebi, conhecido entre praticantes como o Rei de Bé. A expressão vinha da letra B, pronunciada bé, associada ao número oito, a posição que manda a partir da base da formação. O Râguebi representava comando silencioso, força disciplinada, colectivo acima do indivíduo. Havia campos, clubes, escolas, associações e uma cultura viva, praticada por suíços e emigrantes integrados. Não era espectáculo, era formação de carácter.

Nessa mesma época, o Futebol não tinha consistência. Era fragmentado, pouco estruturado e sem expressão cultural forte. Faltavam jogadores estrangeiros, faltavam atletas nascidos no país helvético com origem migrante, faltava massa crítica. Em termos de nível e impacto interno, o Futebol suíço equivalia ao que seria, em Portugal, uma Terceira Divisão nacional. Existia, mas não definia o país nem o seu desporto.

O tempo trouxe mudanças. O Râguebi perdeu espaço, não por falhar nos seus valores, mas por desinteresse institucional e desvio de atenções. O Futebol cresceu mais tarde, apoiado na imigração, na diversidade social e na importação de modelos externos. Tornou-se mais organizado, mais visível e mais praticado, mas nunca se tornou raiz profunda. Cresceu como fenómeno moderno, não como herança antiga.

Apesar disso, o verdadeiro desporto-rei da Suíça sempre foi e continua a ser o Gelo, a Neve e o Ski. A Suíça é, antes de tudo, um país de Inverno. Quando chega o frio, não é preciso publicidade nem campanhas, qualquer pessoa, qualquer família, qualquer geração sobe às montanhas. Vai praticar Ski, caminhar na Neve, viver o território. Não é clube, não é elite, não é profissão, é hábito nacional. É identidade.

O Hóquei no Gelo traduz essa identidade no plano colectivo. É o desporto organizado mais enraizado do país, vivido nas vilas e nas cidades, no amador e no profissional, com clubes históricos, formação sólida e público fiel. Não precisa de mitos nem de exageros, existe porque sempre existiu.

Se olharmos para o conjunto do desporto praticado na Suíça, profissional e não profissional, por suíços e emigrantes, em clubes, escolas e prática livre, a hierarquia geral é a seguinte:

Primeiro, o Ski e os Desportos de Neve, prática massiva, transversal a todas as idades e classes, profundamente identitária.

Segundo, o Hóquei no Gelo, desporto colectivo mais enraizado e estruturado.

Terceiro, a Ginástica e os Desportos Gímnicos, omnipresentes nas escolas e associações locais.

Quarto, o Futebol, muito praticado, sobretudo em meios urbanos e emigrantes, visível mas com menor densidade cultural.

Quinto, o Ciclismo, utilitário, recreativo e competitivo.

Sexto, o Atletismo, base estrutural do desporto escolar e associativo.

Sétimo, o Tiro Desportivo, ligado à tradição cívica e à disciplina histórica.

Oitavo, o Ténis, respeitado e organizado, mas elitista e pouco popular.

Nono, o Râguebi, hoje residual, mas com passado relevante, especialmente nos anos noventa.

Décimo, o Andebol e o Voleibol, desportos de pavilhão, sobretudo escolares.

O Xadrez ocupa um lugar à parte. É praticado em clubes e escolas, com organização e respeito, mas sem expressão massiva. É um desporto intelectual, coerente com a disciplina suíça, porém periférico na prática geral.

A verdade é simples e não precisa de ornamentos. A Suíça não se define pelo Futebol. Define-se pelo frio, pela Montanha, pelo Gelo, pela Neve e pelo Ski. O Râguebi foi rei quando o carácter valia mais do que o espectáculo. O Futebol ocupa hoje espaço porque respondeu à mudança social. Mas o maior estádio do país continua a ser a Montanha.

E enquanto houver Inverno, Neve e famílias a subir em silêncio para o alto, o desporto suíço continuará a dizer quem realmente é, mesmo quando o mundo prefere olhar noutra direcção. 

Lembro que o desporto motorizado, onde há portugueses e outros emigrantes a praticar, nem sequer tem apoio do Estado suíço. A Revista Repórter X já fez reportagens e entrevistas a corredores de duas rodas que se queixaram dessa realidade. Vivem com despesas quase todas suportadas por conta própria, contando apenas com pequenas ajudas de patrocinadores.

O maior apoio é, na verdade, a família, que vai para longe acompanhar o motociclista, levando uma caravana e uma ou duas motas atreladas. Ou seja, levam a tenda ou a casa atrás de si, com camas e refeições, para poderem comer e descansar em acampamentos improvisados nos montes onde decorrem as corridas.

Em qualquer país, qualquer desporto deveria ser apoiado de forma igual pelos seus governantes, e o exemplo do Râguebi, hoje em vias de extinção na Suíça, mostra bem o que acontece quando esse apoio desaparece.

No entanto, também em Portugal se assiste a um declínio. O Motocrosse, o Hóquei em Patins, o Andebol, o Voleibol e algumas formas de Atletismo ou de Natação estão a perder força, não por falta de talento ou dedicação, mas por ausência de visão, apoio e respeito por quem mantém o desporto vivo no terreno.

autor: Quelhas

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