Modernização fiscal ou exclusão silenciosa. O Cantão de Zurique anunciou o fim da solução tradicional de preenchimento da declaração de impostos, impondo progressivamente o modelo exclusivamente online. A medida é apresentada como modernização, simplificação e eficiência administrativa.
Mas por detrás do discurso tecnológico esconde-se uma realidade mais dura, sentida sobretudo por emigrantes, idosos e cidadãos com fraca escolaridade ou limitado domínio da língua do cantão onde vivem e trabalham.
Durante anos, muitos contribuintes recorreram a profissionais para tratar da Steuererklärung, garantindo rigor, compreensão e segurança. Com a digitalização forçada, esse caminho torna-se mais estreito, mais caro ou simplesmente inacessível. Exige-se agora que cada pessoa tenha computador, internet estável, competências digitais, domínio da língua escrita e capacidade de lidar com plataformas rígidas, passwords complexas e procedimentos técnicos, sob pena de erro, penalização ou exclusão.
A isto soma-se o peso crescente das palavras-passe. Steuer, finanças, segurança social, bancos, redes sociais, tudo exige chaves diferentes, memorizadas, renovadas, guardadas algures entre a memória que falha e o papel que desaparece. O cidadão transforma-se num gestor permanente de acessos, mais preocupado em não se bloquear do que em viver. Não é segurança, é desgaste.
Há ainda uma preocupação mais profunda, a substituição gradual do tangível pelo virtual. Tal como se teme o fim do dinheiro físico em favor de moedas digitais, teme-se também o desaparecimento total das vias manuais e pessoais nos serviços públicos. Ainda hoje, passadas mais de duas décadas, o escudo português continua vivo na memória colectiva, mesmo quando se fala em euros. A história prova que uma nova época não se impõe apagando a anterior. Sobrepõe-se, convive, aprende com ela.
É verdade que a tecnologia trouxe avanços reais. As transferências bancárias feitas a partir de casa são exemplo disso. Mas andar sem dinheiro no bolso continua a ser um risco. Basta falhar o cartão MB, o Twint, o telefone, o MBWAY, a rede ou a internet, e tudo pára. Ter dinheiro físico é uma rede de segurança. Do mesmo modo, ter uma versão manual da declaração de impostos é uma garantia de dignidade e acesso.
O problema não está no digital, está na exclusão do humano. Sistemas falham, redes caem, contas são bloqueadas, plataformas ficam indisponíveis. Quando isso acontece, quem não tem alternativa fica preso, impotente, culpabilizado por algo que não controla. Uma sociedade justa não elimina caminhos, cria redundâncias. Mantém portas abertas.
A visão aqui expressa é clara. Deve haver duas versões, a digital e a manual, a moderna e a pessoal. A modernização não pode ser sinónimo de abandono. Um Estado mede-se pela forma como trata os mais frágeis, não pela velocidade dos seus servidores. Avançar para o futuro não pode significar deixar pessoas para trás. Sem isso, não há progresso, apenas exclusão silenciosa.
autor: Quelhas Revista Repórter X / Repórter Editora
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