KESB; quando a justiça hesita, a violência continua. Se não começarem a prender mais homens às primeiras agressões, se não começarem a mandar mais bestas para a prisão com vinte e cinco anos às costas, não mudará uma vírgula ao que realmente define a violência doméstica, escreveu Rodrigo Guedes de Carvalho, cronista do Expresso e jornalista.
Diz ainda, mulheres que vivem sem respirar, esmagadas pelo medo, e homens que não têm medo algum do castigo da justiça.
Esse castigo tímido, hesitante, mole, completamente alheado do terror que mata, volta a matar e destrói futuros às crianças que nele crescem.
As palavras encaixam como feridas abertas, porque descrevem o que se vê e o que se cala.
Acrescenta uma mãe, na terra da Heidi e do Pedro, na Suíça passa-se o mesmo: Aconteceu comigo!
Favorecem-se homens agressores, normaliza-se a violência, desrespeita-se a mulher, que é mãe, que dá vida aos seus filhos.
Depois entregam-se filhas, meninas, a esses mesmos pais agressores, para que o ciclo continue, protegido por decisões frias, por relatórios limpos, por uma justiça que hesita quando devia agir.
A mulher e a mãe são sagradas. Dei muito amor à minha filha e perdi-a para a instituição KESB, depois entregue a uma família de acolhimento e, mais tarde, devolvida à KESB como se fosse um objecto.
Mãe não é um slogan, é uma verdade antiga, daquelas que sempre sustentaram a vida. Onde a agressão não é travada à primeira pancada, o mal aprende que pode avançar. Onde o castigo não assusta, o medo muda de lado e instala-se em quem devia ser protegido.
Acuso a KESB de falhar gravemente na protecção da minha filha. A criança tem quatro anos. Houve braços partidos, dentes partidos e lábios arrebentados, várias vezes. Isto não são acidentes, é violência repetida sobre uma criança indefesa. Trata-se de uma falha humana e institucional grave, que deve ser assumida e responsabilizada.
Eu, como mãe, não sei onde estará melhor a minha filha. Com o pai, a quem foi atribuída a guarda, ou numa instituição. Mal por mal, o diabo escolha.
Não falo de um homem em particular, falo de uma forma colectiva. O pai é como um galo e quem cuida dos pintainhos é a galinha. Nem todos os pais têm a capacidade emocional, a atenção, o jeito e a sensibilidade que uma mãe tem. Não é ataque, é veracidade.
Como já disse o jornalista Rodrigo Guedes de Carvalho, há pais que falham de tal forma que deixam de ser abrigo e passam a ser perigo.
O risco não está no género, está na incapacidade de proteger uma criança pequena, frágil, totalmente dependente. E o silêncio nunca protege ninguém.
Dizê-lo é obrigação. Juntá-lo é dar sentido às palavras. Insistir é a única forma de impedir que o amanhã seja apenas a repetição cobarde de ontem.
autor: Quelhas


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