Justiça suíça aplica prisão perpétua

Justiça suíça aplica prisão perpétua
Justiça suíça aplica prisão perpétua (Foto do jornal lémanbleu)

Julgamento traz nova luz ao caso

Justiça suíça aplica prisão perpétua. A justiça do Cantão de Zurique aplicou, esta terça-feira, uma pena de prisão perpétua ao homem acusado de matar a sua antiga psicanalista em Zurique e um casal de vizinhos em Laupen, no Cantão de Berna. E, apesar de o Ministério Público ter pedido também o internamento do arguido, o tribunal decidiu não acrescentar essa medida, uma vez que os peritos não identificaram qualquer perturbação psiquiátrica relevante. Ainda assim, o processo revelou inúmeros detalhes chocantes que, ao longo da audiência, alteraram profundamente a perceção pública do caso e, por isso, o julgamento ganhou enorme atenção mediática.

Tribunal rejeita tese da defesa

Desde o início do processo, o arguido — um cidadão espanhol de 47 anos, antigo montador de andaimes a viver na Suíça e com histórico de depressões — negou todas as acusações. Contudo, o Tribunal de Distrito de Zurique concluiu, após uma análise extensa, que os elementos recolhidos eram suficientes para confirmar a autoria dos três homicídios. A defesa insistiu num pedido de absolvição, mas a decisão final acabou por seguir integralmente o pedido do procurador. E, embora o arguido tivesse tentado justificar várias contradições durante o julgamento, o presidente do tribunal afirmou que as explicações apresentadas não convenceram em qualquer momento, reforçando assim a credibilidade da acusação.

Contradições marcaram o depoimento

Ao longo da audiência, o arguido afirmou não se recordar do homicídio do casal de Laupen, apesar de conhecer bem as vítimas, que tinham sido seus vizinhos anos antes. Além disso, apresentou os seus alibis apenas na semana do julgamento, o que levantou ainda mais suspeitas sobre a sua versão dos acontecimentos. E, embora tivesse alegado sofrer de problemas cutâneos, tentando justificar a presença do seu ADN nos dois locais do crime, a acusação demonstrou que essa informação, por si só, não explicava a totalidade das provas encontradas. A discrepância entre as suas declarações e o padrão de vestígios recolhidos acabou por ser determinante para o tribunal.

Crimes classificados como assassinatos brutais

Na leitura da sentença, o presidente do tribunal foi particularmente incisivo ao classificar os crimes como “repugnantes” e motivados por fins de roubo. Desta forma, sublinhou que o arguido agiu com uma violência extrema e num contexto marcado por dificuldades financeiras. De acordo com o tribunal, o homem decidiu matar as vítimas precisamente porque estas o conheciam, o que, segundo os juízes, demonstra uma ausência total de escrúpulos. Além disso, as circunstâncias dos homicídios revelam brutalidade incomum, reforçando a convicção de que o arguido planeou e executou os atos com frieza.

Avaliação futura da libertação

Apesar da gravidade dos factos, a ausência de perturbação mental clinicamente comprovada impediu o tribunal de ordenar o internamento. No entanto, isso não significa que o arguido venha a ser libertado automaticamente no final da pena. Em vez disso, a lei suíça determina que qualquer pena de prisão perpétua só pode ser revista após 15 anos, o que implica uma avaliação rigorosa por parte de uma comissão especializada. E, mesmo depois desse período, a libertação só acontecerá caso os peritos considerem que o detido não representa um perigo para a sociedade.

Recordar o que aconteceu em 2010 e 2015

O primeiro crime ocorreu a 15 de dezembro de 2010, quando o arguido se dirigiu ao consultório da sua antiga psicoterapeuta em Zurique. Segundo a acusação, o homem assaltou o gabinete e depois desferiu 14 golpes de faca na vítima, uma profissional de saúde mental de 56 anos. Além do roubo, o ataque envolveu uma violência descrita como excecional e injustificada. Cinco anos mais tarde, exatamente na mesma data, voltou a atacar. Desta vez, deslocou-se a Laupen, onde viviam os seus antigos vizinhos, um casal idoso, e matou-os após entrar na residência para roubar bens. O tribunal concluiu que a dupla vítima sofreu cerca de trinta golpes com o cabo de uma machadinha ou com um martelo, numa agressão que a acusação classificou como “feroz e deliberada”.

Fuga, regresso e detenção dez anos depois

Após o segundo homicídio, o arguido conseguiu escapar às autoridades durante quase uma década. Segundo o processo, ele tinha fugido de uma clínica psiquiátrica pouco antes do ataque e, em seguida, abandonou a Suíça. Apenas foi detido em janeiro de 2024, no aeroporto de Genebra, quando regressava ao país. Os investigadores usaram o ADN recolhido nos locais dos crimes e nas vítimas, e esse material revelou detalhes essenciais para reconstituir acontecimentos decisivos agora. O arguido e o advogado defenderam que o ADN surgiu antes dos crimes, alegando que uma doença cutânea lhe provocava constante queda de pele. Além disso, sugeriram que alguém poderia ter manipulado os vestígios para incriminá-lo intencionalmente.

Tribunal descarta teorias alternativas

Tanto o Ministério Público como o tribunal rejeitaram estas hipóteses. O procurador classificou a teoria da defesa como “irrealista”, enquanto a própria justiça a considerou “absurda”. No momento de anunciar a sentença, o presidente do tribunal referiu que não existe outra explicação plausível que não a responsabilidade direta do arguido, sublinhando que o conjunto das provas apresentadas forma um quadro coerente e irrefutável. A decisão reforça a confiança no trabalho das autoridades, que, ao longo de mais de dez anos, reuniram elementos suficientes para esclarecer os crimes.

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