Genebra quer compreender o porquê do aumento da assistência social

Genebra quer compreender o porquê do aumento da assistência social
Genebra quer compreender o porquê do aumento da assistência social

Aumento histórico da assistência social

Genebra quer compreender o porquê do aumento da assistência social. Desde logo, Genebra enfrenta um crescimento sem precedentes da assistência social, uma vez que o número de processos aumentou mais de 30% desde 2023. Atualmente, segundo projeções oficiais, os pedidos cresceram 4% em 2023, 8,6% em 2024 e deverão atingir 17% em 2025. Assim, o cantão destaca-se negativamente no contexto suíço, onde a tendência global continua a ser de redução do recurso à ajuda social.

Além disso, enquanto a média nacional passou de 3,1% da população apoiada em 2012 para 2,8% em 2024, Genebra registou um aumento de 5,3% para 6,3% no mesmo período. Por conseguinte, as autoridades procuram compreender as razões desta evolução atípica e persistente.

Entretanto, o Hospice général, entidade responsável pela assistência social, confirmou um duplo fenómeno preocupante. Por um lado, o número de novos beneficiários aumentou de forma abrupta. Por outro lado, as saídas do sistema diminuíram de forma significativa. Assim, o volume total de processos ativos continua a crescer.

De facto, entre 2012 e 2024, os dossiês passaram de 13.768 para 21.140, o que representa uma subida superior a 53%. Contudo, nesse mesmo intervalo, a população apenas cresceu 12%. Desta forma, os custos sociais aumentaram muito acima do crescimento demográfico.
Perante este cenário, a pressão sobre o sistema social tornou-se estrutural, exigindo respostas políticas rápidas e sustentadas.

Pressão política e auditorias em curso

Perante a gravidade da situação, o partido Le Centre anunciou que irá pedir ao Grande Conselho a análise urgente de uma moção. Assim, pretende-se criar uma comissão parlamentar de inquérito para avaliar a governação do Hospice général. Além disso, a comissão deverá analisar o aumento das despesas obrigatórias e os mecanismos de controlo existentes.

Contudo, paralelamente, o Departamento da Coesão Social, liderado por Thierry Apothéloz, já decidiu avançar com uma auditoria interna. Simultaneamente, o próprio Hospice aguarda os resultados de um estudo externo focado nos percursos dos novos beneficiários. Dessa forma, as autoridades procuram obter uma leitura mais rigorosa e técnica da situação.

Ainda assim, os primeiros dados disponíveis não apontam para uma causa única. Pelo contrário, as análises revelam uma combinação de fatores sociais, administrativos e estruturais. Por isso, os responsáveis admitem dificuldades em identificar explicações simples ou imediatas.

Segundo um estudo interno divulgado em janeiro de 2025, nenhum grupo considerado “de risco” registou um aumento desproporcionado face ao período 2016-2019. Além disso, o relatório afastou a hipótese de o abandono escolar explicar os picos recentes. Atualmente, a escolaridade obrigatória até aos 18 anos alterou sobretudo o momento do abandono, e não o número total de jovens afetados.

Assim, os autores do relatório concluíram que as causas do fenómeno permanecem complexas e difíceis de isolar, recomendando investigações especializadas.

Entradas em alta e saídas em queda

De forma particularmente surpreendente, os anos de 2023 e 2024 apresentaram padrões semelhantes ao período da pandemia. Em ambos os anos, as entradas no sistema aumentaram de forma comparável a 2020. No entanto, ao contrário desse período, Genebra não enfrentou qualquer crise económica ou social relevante em 2024.

Além disso, as saídas do sistema diminuíram nesses dois anos, algo que apenas tinha ocorrido anteriormente durante a crise sanitária. Assim, esta combinação contribuiu de forma decisiva para o aumento acumulado de processos ativos.

Entretanto, alguns profissionais questionaram se a simplificação administrativa introduzida antecipadamente em 2024 poderá ter influenciado os números. A nova Lei sobre a ajuda social e a luta contra a precariedade, em vigor desde janeiro, aposta num modelo baseado na confiança. Assim, os controlos foram reduzidos e os apoios passaram a ser atribuídos através de montantes fixos.
Apesar disso, o relatório interno esclarece que esta mudança não explica o aumento de 2023 e apenas poderá justificar parcialmente os números de 2024. Portanto, a simplificação administrativa não surge como fator determinante.

Por outro lado, Genebra apresenta especificidades sociais relevantes. O cantão concentra o maior número de jovens do país e o nível mais baixo de certificação escolar no final do ensino obrigatório. Além disso, possui o dobro das famílias monoparentais face à média nacional. Consequentemente, estas populações mais vulneráveis recorrem com maior frequência à assistência social.
Ainda assim, outras grandes cidades suíças enfrentam desafios semelhantes, mas registam uma tendência inversa. Assim, Zurique, Basileia, Lausanne e Berna conseguiram reduzir o número de beneficiários, o que fragiliza esta explicação.

Precariedade crescente e limites do sistema

Entretanto, o Hospice identificou um agravamento da precariedade antes mesmo da entrada no seu sistema. Em várias cidades do cantão, como Genebra, Onex e Vernier, o recurso a apoios municipais duplicou ou mais entre 2023 e 2024. De forma semelhante, organizações caritativas relataram aumentos expressivos nos pedidos de ajuda.


Segundo o relatório, o aumento do custo de vida, aliado ao crescimento das pessoas a viver sozinhas e das famílias monoparentais, contribuiu para esta pressão social. Contudo, estes fenómenos afetam todo o país, o que relativiza o seu peso específico em Genebra.


No que respeita à diminuição das saídas, os assistentes sociais destacaram dificuldades adicionais. Muitos beneficiários enfrentam uma forte aversão a procedimentos administrativos. Além disso, outros revelam dificuldades crescentes com a digitalização dos serviços. Embora estas perceções não estejam estatisticamente comprovadas, refletem preocupações recorrentes no terreno.


Outro fator consensual prende-se com a sobrecarga de trabalho. Atualmente, cada assistente social gere cerca de cem processos. Assim, grande parte do tempo é dedicada a emergências, em detrimento do acompanhamento individual rumo à reinserção. Em comparação, a média nacional situa-se entre 40 e 60 processos por profissional.


Além disso, o relatório aponta para uma saturação dos parceiros institucionais. Por exemplo, os atrasos na renovação de autorizações de residência dificultam o acesso ao emprego. Desta forma, o problema assume uma dimensão sistémica, ultrapassando largamente o âmbito do Hospice.

Debate político e futuro da nova lei

Neste contexto, o debate político intensificou-se. O PLR apresentou um projeto de lei que defende que, para jovens entre os 18 e os 25 anos, a assistência social nunca deve ser mais vantajosa do que um salário de formação profissional. Segundo os proponentes, alguns jovens poderão considerar a ajuda social mais atrativa do que a formação.


Porém, esta visão é fortemente contestada pelos profissionais. Guillaume Thion, assistente social e representante sindical, alerta para um retrocesso. Segundo ele, reduzir prestações aos jovens aumenta o isolamento e compromete a inserção. Além disso, denuncia uma lógica de redução de custos à custa das populações mais frágeis.


O sindicalista receia ainda que a nova lei seja enfraquecida antes de produzir efeitos. Embora 30 novos postos tenham sido criados, a carga de trabalho continua elevada. Assim, o reforço do acompanhamento social, pilar central da lei, permanece limitado.


Para Guillaume Thion, investir em recursos humanos é essencial para promover reinserções duradouras. Por isso, defende que a lei deve ser encarada como um investimento estratégico no futuro social do cantão.

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