Festa de fachada? A visita de Marcelo a Angola e o espelho da desilusão. A deslocação do Marcelo Rebelo de Sousa a Angola para participar nas comemorações dos cinquenta anos da independência do país face à antiga potência colonial de Portugal parecia ser um gesto diplomático de relevo.
Contudo, quando se analisa o cenário que se vive em Angola, torna-se difícil não ver a cerimónia como um exercício de cosmética política: milhares de pessoas reunidas, discursos de amizade, medalhas atribuídas… mas por detrás da festa, uma população que continua a enfrentar carências profundas, um Estado onde a corrupção se instalou em estruturas centrais, e uma democracia que, para muitos, equivale mais a uma ilusão do que a uma realidade.
Este artigo propõe-se a olhar de modo crítico para o evento, para o papel de Marcelo e para o que está por baixo daquela encenação diplomática com a intenção de provocar reflexão.
A festa e o símbolo
Na capital, Luanda, o Estado angolano investiu numa comemoração grandiosa para assinalar meio século de independência.
Paralelamente, o Presidente Marcelo fez questão de sublinhar que o momento é «muito significativo na relação de estreita cooperação e profunda amizade entre Portugal e Angola».
No entanto, enquanto as luzes se acendiam e os aplausos ecoavam, muitos angolanos observaram com acentuada ironia como o dinheiro era gasto em comemoração, e não em bens essenciais para o povo. E esta dualidade entre imagem e realidade é inquietante.
A pobreza e a miséria escondidas
É incontestável que Angola detém enormes recursos naturais petróleo, diamantes e outros minerais. Contudo, esses recursos quase nunca se traduziram em melhoria de vida para a maioria.
Segundo o relatório da Freedom House de 2022, o país continua a enfrentar violações sistemáticas de direitos humanos, corrupção persistente e instituições fracas.
Apesar disso, o espetáculo da independência ergue-se numa narrativa de progresso que contrasta fortemente com o dia-a-dia de muitos cidadãos. Quando se gasta em medalhas, festas, cerimónias e viagens de Estado, tudo isso pode ser visto como uma escolha clara de prioridades e não necessariamente as prioridades do povo.
Corrupção endémica: o coração da crise
Não é novidade que o sistema angolano, desde há décadas, está profundamente marcado por práticas corruptas.
Por exemplo: a antiga administração de José Eduardo dos Santos, que governou entre 1979 e 2017, foi alvo de múltiplas acusações de desvio de recursos públicos, favorecimento da elite e manipulação sistemática das estruturas estatais.
Ainda segundo a Wikipédia (embora se recomende cautela quanto à fonte), o país ocupa posições muito baixas em índices de transparência e governo, o que indica o grau de institucionalização da corrupção.
Em paralelo, jornalistas que investigam estes temas têm sido alvo de processos de difamação ou pressões estatais para se silenciarem.
Em suma: a ‘festa’ da independência deixa-se envolver por um regime que não resolveu e parece não querer resolver a raiz do problema.
Os milhões das empresas portuguesas em Angola: o silêncio que fala alto
Apesar do discurso político de amizade e cooperação, há um motivo bem mais concreto por detrás da cordialidade entre Lisboa e Luanda: os milhões que circulam entre as empresas portuguesas e o Estado angolano.
Ao longo dos últimos anos, grandes grupos empresariais portugueses sobretudo nos sectores da construção civil, banca, energia e telecomunicações têm conquistado contratos milionários em Angola.
Empresas como a Mota-Engil, a Soares da Costa, a Teixeira Duarte e a Galp Energia mantêm uma presença sólida no mercado angolano, muitas vezes garantida por acordos diretos com o governo.
Segundo o Banco de Portugal, em 2023 o investimento direto português em Angola ultrapassou os dois mil milhões de euros, enquanto as remessas de lucros para Portugal cresceram quase 10% face ao ano anterior.
Estas cifras explicam, em parte, o comportamento político de Lisboa: por trás da retórica da amizade, há interesses económicos poderosos que não podem ser ignorados.
Por isso, quando Marcelo Rebelo de Sousa sorri ao lado de João Lourenço, não é apenas um gesto de cortesia é também um símbolo da dependência mútua entre governos e empresas.
Lucros milionários e pobreza persistente
Enquanto o povo angolano enfrenta miséria e fome, as elites empresariais de ambos os países continuam a beneficiar de uma relação que se constrói sobre o desequilíbrio.
E, ironicamente, essa dependência económica reforça o silêncio político português sobre as violações de direitos humanos e sobre a corrupção endémica em Angola.
Muitos observadores independentes apontam que, se Portugal levantasse a voz contra a falta de transparência e de liberdade, arriscaria perder contratos milionários, afectando grandes grupos com peso político em Lisboa.
Assim, compreende-se melhor o que está por trás da visita presidencial: uma diplomacia de conveniência, onde o discurso da cooperação serve como capa para a proteção de interesses financeiros.
É importante realçar que estes lucros raramente se traduzem em benefícios para o cidadão comum, nem em Angola nem em Portugal.
No lado angolano, as receitas vão para uma elite restrita. No lado português, fortalecem empresas com presença em offshores e influência política.
E, enquanto isso, os povos aquele que luta para sobreviver e o outro que sente o impacto da imigração e da criminalidade continuam à margem do banquete diplomático.
O papel de Marcelo: diplomacia ou complacência?
Quando o Presidente português chega a Luanda e participa numa cerimónia em que o anfitrião faz questão de afirmar que “os portugueses escravizaram os angolanos” e que “os angolanos expulsaram os portugueses”, o gesto diplomático torna-se, no mínimo, incómodo. Segundo a notícia da RTP, Marcelo afirmou que “é difícil encontrar momento tão excelente nas relações” entre Portugal e Angola.
Para alguns, esse sorriso aparente do Presidente português pode parecer mais uma aceitação do guião oficial angolano do que uma avaliação crítica da situação real. Ele, que representa Portugal país onde muitos angolanos emigram, onde muitos reclamam das condições que encontraram parece comprometer-se sobretudo com a ‘imagem’ da amizade, e menos com a defesa dos interesses dos portugueses ou da clareza moral frente ao regime angolano.
É legítimo perguntar se não estará, de facto, a participar de uma encenação diplomática que ultrapassa o que um chefe de Estado de uma antiga potência colonial deveria aceitar.
Emigração angolana para Portugal: a face visível do problema
Enquanto se celebrava em Luanda, milhares de angolanos continuavam a procurar Portugal como alternativa de vida melhor. A realidade mostra um movimento migratório impulsionado pela miséria, pela falta de oportunidades e pelo desespero de uma parte considerável da população.
Esse fenómeno, contudo, gera tensões visíveis. Alguns cidadãos angolanos em Portugal cometem crimes ou enfrentam exclusão, o que alimenta narrativas negativas sobre a comunidade e a relação bilateral.
É paradoxal: a ex-colónia em festa, a antiga potência aplaudindo, enquanto muitos dos seus emigrantes vivem no limiar da exclusão. E isso, evidentemente, deveria merecer alguma reflexão séria, por parte de Portugal e de Marcelo.
Democracia ou farsa?
A retórica oficial angolana insiste em projetar a ideia de “um só povo” e de grande celebração democrática.
Contudo, os factos dizem outra coisa: segundo a Freedom House, Angola continua a ser um país onde o mesmo partido está no poder desde a independência, onde o espaço cívico está limitado e onde os direitos políticos se encontram fragilizados.
Assim, essa chamada “democracia” celebra-se com pompa e circunstância num aniversário de independência mas as liberdades reais, a participação verdadeira e a responsabilização dos líderes permanecem à margem. Assim sendo, a festa corre o risco de servir como cobertura para o que de facto é um regime autoritário com fragilidades estruturais.
O que falta ao povo angolano
Enquanto se distribuem medalhas, fazem-se desfiles e discursa-se sobre “cooperação amiga”, muitos angolanos continuam sem acesso a água potável, educação de qualidade, cuidados de saúde adequados ou emprego digno.
Em vez de investir prioritariamente na base da sociedade, o dinheiro público dirige-se a celebrações que beneficiam elites ou visibilidade internacional. É importante sublinhar: não se trata apenas de “falta de recursos”, mas de uma questão de opção política. Quando se gasta em espectáculo e não em necessidades, faz-se uma escolha.
E essa escolha deixa muitos angolanos a pensar que a “independência” não trouxe a liberdade aguardada trouxe antes outra forma de tutela, interna e externa, mas com o povo à margem.
Uma relação bilateral com desequilíbrios
Portugal, como ex-potência colonial, tem responsabilidades históricas. Numa lógica de amizade e cooperação, poderia exigir mais transparência e boa governação ao parceiro angolano.
A visita de Marcelo podia ter sido uma oportunidade para propor reformas concretas, para interpelar o regime angolano sobre direitos humanos, para garantir que os fundos europeus ou de cooperação fossem efetivamente aplicados em benefício da população.
Mas a sua aproximação parece ter privilegiado os gestos simbólicos a foto, o elogio da “excelente” relação entre os dois países. Isto ignora o que realmente importa. É preciso garantir que portugueses e angolanos, sobretudo os mais pobres, não fiquem reféns de desequilíbrios e narrativas falsas.
Conclusão
A deslocação do Presidente Marcelo a Angola para comemorar os 50 anos de independência não é, por si só, condenável. Muito pelo contrário: as relações diplomáticas e a cooperação internacional são necessárias.
Contudo, a visita ocorre num país marcado por pobreza estrutural, corrupção e uma “democracia” fragilizada. Perante isso, é legítimo que soem sinais de alerta.
A festa em Luanda amplia as contradições do regime angolano. Mostra também o papel que Portugal e Marcelo escolheram: o de convidados que apenas aplaudem.
Se nada for feito para transformar as celebrações em melhorias reais para angolanos e emigrantes, o simbolismo político acabará por soar a puro cinismo.
Que esta visita, pelo menos, sirva como ponto de partida para uma reflexão séria — e não para mais uma cortina de fumo.
Destaco: Este é o momento de reconhecer que muitas das promessas ficam no ar. Os aplausos não substituem a acção. Que a independência formal não garantiu a emancipação efetiva do povo.
Que não se celebre apenas porque se deve, mas que se exija porque é justo.
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