Entre a história da carochinha, a ficção e o pensamento, os três reis magos, os camelos e o palmo

Entre a história da carochinha, a ficção e o pensamento, os três reis magos, os camelos e o palmo
Entre a história da carochinha, a ficção e o pensamento, os três reis magos, os camelos e o palmo

Entre a história da carochinha, a ficção e o pensamento, os três reis magos, os camelos e o palmo. Conta se, há séculos, que os reis magos vieram do oriente guiados por uma estrela. Chamavam se melchior, gaspar e baltasar. Montavam camelos, atravessaram desertos, venceram a noite e o cansaço, trazendo ouro, incenso e mirra para oferecer ao menino que nascera em belém. Eram reis sábios, vindos de terras longínquas, diferentes entre si, mas unidos pela fé. Chegaram humildes, ajoelharam se diante da criança, reconheceram nela o salvador do mundo, e regressaram por outro caminho, transformados.

Esta é a história ensinada. A história repetida nos presépios, nos livros infantis, nos sermões, nas imagens de natal. Três homens, três reis, três camelos, uma estrela, um destino traçado.

Agora vem o que raramente se diz.

O texto bíblico original não fala em reis. Fala em magos, sábios do oriente, homens que observavam os astros. Não diz quantos eram. Não lhes atribui nomes. Não descreve idades, estatuto social, nem origem exacta. Não fala em camelos. Nem sequer afirma que tenham sido três.

O número nasceu mais tarde, deduzido a partir dos presentes. Três ofertas, logo três homens, um ponto.

Depois vieram os reis. Magos soava a pagão, a incómodo, a perigoso. Reis era mais aceitável, mais solene, mais útil à catequese, outro ponto.

Vieram depois os nomes, melchior, gaspar e baltasar, para tornar a história memorizável e transmissível, mais um ponto.

Vieram as origens, europa, ásia e áfrica, para simbolizar todos os povos da terra, outro ponto.

Vieram as idades, o velho, o adulto, o jovem. Vieram as cores de pele. Vieram as vestes ricas. Vieram os camelos, porque reis do oriente sem camelos não fazem sentido no imaginário colectivo. E assim, ponto a ponto, a narrativa cresceu.

Hoje ninguém imagina os reis magos sem camelos. Os camelos tornaram se tão reais quanto os próprios reis. Mas os camelos nunca estiveram lá. São construção visual, tradição repetida, verdade por insistência.

Não houve mentira inicial. Houve acréscimo. Houve pedagogia. Houve boa intenção. Mas cada boa intenção acrescentou um ponto, e o ponto transformou se em palmo.

É assim que funciona a história, não apenas a religiosa, mas também a política, a social e a familiar. Uma hipótese escrita torna se possibilidade. A possibilidade torna se probabilidade. A probabilidade transforma se em afirmação. E a afirmação, com o tempo, passa a facto indiscutível.

Quando escrevo história, sei que corro o mesmo risco. Sei que uma suposição minha, clara e assumida como tal, pode ser lida amanhã como certeza. Sei que alguém pode retirar o talvez, o possivelmente, o poderia ser. E sei que daqui a cem anos alguém pode citar uma frase minha como se fosse prova.

Não é por isso que deixo de escrever. É por isso que escrevo com consciência.

Há milhares de pessoas a pensar o que eu penso. Sempre houve. O pensamento é colectivo. A diferença está em quem o fixa no papel. O que não se escreve desaparece. O que se escreve fica. E o que fica ganha autoridade, mesmo quando nasceu frágil.

A bíblia, os reis magos, melchior, gaspar, baltasar, os camelos e os mitos fundadores mostram como o tempo transforma construções humanas em verdades sagradas. Não por conspiração, mas por esquecimento da origem.

Escrever hoje é aceitar essa responsabilidade. Não fingir neutralidade, não fingir revelação, não fingir verdade absoluta. Escrever como homem situado no seu tempo, consciente de que acrescenta um ponto, e avisando que é apenas um ponto.

Porque o perigo não está em pensar, nem em escrever. O perigo está em esquecer que foi pensado e escrito por alguém.

E quando o esquecimento chega, o palmo já ninguém o mede.

autor: Quelhas

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