Emigrante portuguesa abandonada pelo estado; sem médico e sem advogado

Emigrante portuguesa abandonada pelo estado; sem médico e sem advogado
Emigrante portuguesa abandonada pelo estado; sem médico e sem advogado

Sou imigrante há 39 anos na Suíça, no cantão de Fribourg. O meu nome é Alice Tavares. Tive um acidente de trabalho no ano de 2018 e continuo ainda com muitos problemas de saúde. A partir do meu acidente, a vida nunca mais foi a mesma. Sofro muito, com muitas dores em todo o corpo e também a nível mental.

Os médicos nunca quiseram levar a situação a sério e, passados seis meses do acidente, quiseram operar-me ao tornozelo. O médico que me acompanhava mandou outro médico operar-me, mas eu nem sequer assinei a autorização para a operação, nem me foram explicadas as consequências que eu poderia vir a ter. A operação correu mal e, a partir daí, continuei a sofrer muito.

Foi perfurado um nervo, um tendão ficou colado à placa e, como resultado, não posso tocar no pé, tenho muitas dores na perna, falta de força para caminhar e noites sem dormir. A minha vida tornou-se um pesadelo. Agora, os médicos colocam as culpas uns nos outros. Impediram-me de continuar a ir às consultas.

Enviei carta a dizer que se tratava de negligência médica da parte deles, mas é sempre assim, deixam os pacientes sem direitos, sem nada. Eles cometem o erro e não querem saber de nós. Os médicos foram a tribunal, porque um diz que não é culpa dele, diz que é do outro, enfim. Eu ando nisto há anos, os anos estão a passar e eu continuo a sofrer.

Mas o pior é não conseguir arranjar um médico que me continue a tratar. Nós, imigrantes, temos de ter o consulado para nos ajudar, o governo tem de nos ajudar a defender os nossos direitos. Trabalhámos, descontámos, e pergunto onde está a dignidade do nosso país em ajudar os verdadeiros portugueses imigrantes.

Vamos pedir ajuda, não apenas para este caso. Precisamos de médicos que não façam parte do sistema. No caso da Alice, nem médico tem. Conhecemos outros casos de pessoas que ficaram sem médico e depois arranjaram outro, mas não funciona, muito menos o médico de família, que nos obrigam a ter.

Precisamos de advogados portugueses para furar o sistema. Os consulados e as embaixadas não erguem uma palha. Os deputados pela Europa dizem, com todas as letras, que os nossos diplomatas no estrangeiro são obrigados a ver cada caso relatado, mas sacodem o capote. Os deputados declinam para o cônsul-geral e para o embaixador, e eles próprios ficam ali, imóveis, como uma árvore de Natal decorativa.

Para não falar nos conselheiros, que não têm força institucional nenhuma e servem como brinquedo do ministro dos Negócios Estrangeiros, que vai sacando informações que, infelizmente, são na maioria de interesse próprio e não dos lesados. Quer o ministro dos Negócios Estrangeiros, quer o secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, são políticos indiferentes. Têm galardões, mas não visitam os emigrantes para conhecerem os problemas reais.

O governo, os deputados na Assembleia da República e o presidente da República Portuguesa estão preocupados consigo próprios, com a família e com os amigos, e continuam a tratar os emigrantes como cidadãos de segunda categoria. Nenhuma alma nos ajuda porque não quer. A Suíça ouviria os nossos políticos, eles é que não se importam de nos ajudar. Só se importam connosco nas eleições, quando pagamos o duplo imposto e quando nos cobram IRS na reforma, no nosso regresso.

Todos querem mamar na vaca gorda, a vaca magra ignoram-na. Portugal é dos portugueses. Eu sou portuguesa como qualquer cidadão a residir no país. Sou ainda mais prejudicada no acesso à saúde, porque não tenho nenhuma. Até os médicos de família os emigrantes perderam. Nunca trabalhámos nem descontámos em Portugal, mas o Estado ganha milhões com os nossos impostos e rouba-nos indirectamente quando chegamos a Portugal, através do IRS, numa altura em que a maioria dos emigrantes já recebe uma reforma miserável, especialmente quem vive de uma pensão de invalidez.

Precisamos de ajuda. Se não, teremos de fazer uma associação para todos os lesados e levar os governos suíço e português ao tribunal dos direitos humanos.

Alice Tavares

Revista Repórter X Editora Schweiz

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